-Acorda Paulo que já são 6.
-O quê? Já marcaram outro?

Climas, de Nuri Bilge Ceylan
Enquanto aguardava que Richard recuperasse as bagagens de ambos, Consuelo olhou distraidamente em volta, evitando pensar nas luzes fluorescentes e amareladas da zona de chegadas. Percorreu devagar a nave e reparou num jornal esquecido num trolley de bagagens, relatando as últimas notícias do dia
"Polícia continua sem pistas quanto aos autores do atentado contra o prédio em Sevilha"
Na primeira página do jornal, uma fotografia de Javier Falcón de óculos escuros perscrutando pela enésima vez os escombros em frente a uma tenda de campanha instalada pela Protecção Civil, cujos membros trajavam de branco, protegidos por máscaras equipadas com filtros de ar. Consuelo levou instintivamente a mão ao bolso do casaco, de onde retirou o telefone, no qual digitou apressadamente um número, aguardando ansiosamente pela voz do interlocutor. Nesse preciso instante Richard chegou, chamando-a ao seu encontro, empurrando o carro com as malas de ambos. Consuelo desligou o telefone sem se certificar que a chamada tivesse sido atendida
- Estou preocupada, a ama não atende, importas-te de me deixar em casa, Richard? Desculpa...
O inglês puxou-a para si, abraçando-a ao mesmo tempo que sorria afavelmente, encaminhando-se em seguida para o exterior, dirigindo-se para um táxi na fila próxima. Já na avenida de Kansas City, o odor das laranjeiras invadiu o habitáculo, mas só mais tarde Consuelo Jimenez o notou, concetrada que estava em encontrar a melhor forma de se despedir de Richard sem o magoar e sobretudo sem ter de lhe explicar que não queria que ele estivesse ao seu lado nessa noite. Sobretudo não nessa noite em que não queria misturar a perfeição aparente das duas noites anteriores, com o perfeito isolamento de que carecia então. Por isso o tacto da pele de Richard lhe pareceu insuportável quando lhe tentouu segurar na mão, por isso o cheiro dos seus cabelos, tão impecavelmeten lavados lhe pareceram insuportável. despediu-se como pôde, com a pressa de um artista que escolhe sem tempo as cores da tela que pinta num túnel de metro antes da chegada iminente da polícia. Sem o beijar, mas agradecendo delicadamente, com uma delicadeza criadora de distância, os dois dias maravilhosos que haviam passado juntos.
- Posso ligar-te amanhã?
- Sim, claro que sim, estarei cedo no Asador, depois de deixar as crianças na escola.
- Almoçamos?
- Sim, mas combinamos amanhã - respondeu Consuelo, na esperança de conseguir encontrar uma forma de se esgueirar.
E saiu do táxi beje, percorrendo num passo rápido a distância até à entrada do luxuoso bloco de apartamentos onde residia. Enquanto isso, Javier Falcón adormecia junto ao fogão da cozinha, com a mão direita descansando sobre a arma poisada nas suas coxas.
