7 de agosto de 2018

Et cetera

Nunca falo de noite
nunca tenho alucinações
pesadelos
ou sonhos inquietantes
não sei de que matéria
                                   se alimenta
                                   o meu sono
No entrançado
dos meus sentidos
Não construo cenários
                                   nem faço vigílias

A idade, esse monstro
que nos transforma
não me faz gravitar outras realidades
É essa a verdade
                           astrológica
                           a minha dança imóvel
                                                              a minha realidade pulmonar
                                                                                            alveolar
                                                                                                             
A claridade atómica coada por um copo cheio
sobre o qual se fecham os meus lábios sedentos
de uma ponta de cigarro
                                       - Que têm contra os cigarros?

Mas dizia
               a claridade atómica das palavras
               despoletada por reações em cadeia
               excessos vocais
                                         sinais
                                         terminais
                                         coisas nominais
                                                                  que com a luz se ocultam em águas providenciais

pela manhã cristalizam num rosto
                                                       encimado por um diadema precioso
Sorri                       
        -me  :-)
                                                                              Acordo.
                                                                              O mundo flutua
                                                                                                        Et
                                                                                                        cetera
                                                                                           




6 de agosto de 2018

Incandescências

Dormir com a noite
pintar a incandescência dos dias
saltitar o amor
ocupando os espaços terrenos
ressuscitando palavras
sem idiossicrasias
palavras
antes adormecidas nos pátios
pendendo nos beirais
vozes
cantam os dias
flutuam colina acima
espelhando estrelas
respiram
como tubos de órgão
entoando melodias

3 de agosto de 2018

canícula


que canícula
que espinhos
que raiz
Arde
Arde tudo
em labareda viva
dentro e fora
tudo calcinado
sem ar
elementar

11 de julho de 2018

"Isso"


Acontece-nos dizer "isso"
como uma palpitação
ou antes uma excitação
a expressão de um rosto
uma labareda
a aleg(o)ria de um verbo
toda a gramática
dos versos
"isso tudo"
o modo de virar a cabeça
o bater do coração
uma maçã colhida
uma árvore
a luz coada pela folhagem
luz sonhada
a órbita desenhada pelo amor
húmido, quente, fecundo
a espera
- apetece-te?-
um prado
um picnic
uma música
o silêncio
o sussurro de um segredo
a vida inteira
“isso”

5 de julho de 2018

Kronos Quartet


Kronos Quartet, Requiem for a Dream

Em 1973 o estudante David Harrington (violinista), então com 15 anos, ficou impressionado com uma atuação do quarteto The Black Angels de George Cromb. Pareceu-lhe então que a música de Cromb sintetizava na perfeição toda a revolta que sentia contra as ações militares dos EUA, em particular a guerra no Vietname. Procurou, por isso, juntar um grupo de instrumentistas para interpretar os Black Angels o que, percebeu, não se afigurava fácil. O grupo teve de trabalhar muito e reaprender técnicas novas de interpretação dos instrumentos musicais, fazendo inúmeras pesquisas que contribuiram para aumentar o seu repertório. Na altura, quase toda a música para quartetos de cordas conhecida havia sido composta por Haydn, Schubert, Mozart e Beethoven, numa pequena área em redor de Viena, como se o resto do mundo não existisse ou tivesse sonoridade própria.

Assim, a linha que o que o Kronos Quartet adotou foi a de reinterpretar não apenas as composições clássicas, mas igualmente incorporar nas suas representações trabalhos de artistas improváveis, de outras origens ou áreas musicais, como o jazz ou a música folclórica, passando pelo tango, bandas sonoras para cinema ou interpretações de música antiga e clássica. Neste já longo percurso de mais de quarenta anos, o Kronos Quartet colaborou com músicos como Phillip Glass (minimalista), Kimmo Pohjonen (finlandês, acordionista, que já passou por Loulé) ou Nelly Furtado, mas também Islam Chipsy (egípcio, virtuoso do Chabi eletrónico ), Fodé Lassana Diabaté (maliano) ou Bryce Dessner (americano, membro dos The National).

O Kronos Quartet toca hoje em Lisboa, nas ruínas do Convento do Carmo, num momento dificilmente repetível.

A moment is gone
the moment you close your eyes
A moment is gone
when you hear the same old song

or read the same old book
it won't come back
that moment
won't come back
It's wind

It's a dream

24 de junho de 2018

Fácil


Patricia Barber, "Code Cool"

Nem sempre era fácil
nos idos de janeiro
em meados de abril
maio adentro
No solstício de junho
quando te saíam as lágrimas
os soluços
duvidavas
e partias
perdia-Te
perdiamo-nos
e morriamos aos poucos
Eramos jovens e por isso
a óbvia imortalidade  do amor
Se tornou menos óbvia
Até que Um dia

Um dia em idos de janeiro
meados de abril
maio adentro
no solstício de junho
o amor
que era óbvio
ja não era Inquestionável

e assim perdia-Te
aos poucos um dia de cada vez
em idos de janeiro
meados de abril
maio adentro
no solstício de junho

quando deixei
de estender-te as mãos
à procura do óbvio
à espera do inquestionável




21 de junho de 2018

Haikais soltos



O gele derrete
arrefece a água
Eu ardo.
.
Despede-se Hoje
a primavera
olha pela janela
.
O vento sopra
retorce-se de saudade
vazio de ti
.
Amanhã renasço
para encarnar
em ti


16 de junho de 2018

O segredo

o segredo
[uma tempestade vista
pelos teus olhos]
encerra-se neste poema
escrito
à sombra dos jacarandás
em junho
a caminho do equinócio

Nós cegos
pela luminosidade das palavras
e a obscuridade dos poemas
batidos pelos último pingos de chuva
Procuramos
no aluvião das sílabas
no interior dos silêncios
[Instantes]
a que nos agarrarmos
fintando a sorte da memória
as mãos
pousadas em forma de líquen
sobre a pele.

O segredo
[as palavras que não te disse
nem escrevi]
são folhas riscadas
rasgadas
abandonadas debaixo do parapeito
Queria
pedir que as esquecesses
mesmo que as não tenhas lido
ou ouvido
para depressa as banirmos da memória
e fecharmos as pálpebras

O segredo
é que escrevo
a verdade
a mentir.








5 de junho de 2018

Lucidez

Lábios
água
molhados
sémen
cabelos

suponho que muitas noites
deveriam terminar assim
varadas




pela luz




Noite

Somos
os novos mercadores
do amor
No silêncio
na bruma
coração extraviado
história desfiada
sentimentos incandescentes
esfumando-se
como pontas de cigarro
sem alicerces
amolecidos pelo tempo
gravados em calcário

medo

                                                          uma vida
apenas uma
nenhuma mais
à deriva

incorrigível realidade
lábios                                               separados
palavras que nunca se dirão

noite
                                                        sem fim

tempo infinito




23 de maio de 2018

Momentos antes de adormecer


The Thrill is Gone, Crossroads Guitar Festival, Chicago, 2010
Eric Clapton, Robert Cray, Jimmie Vaughan, Johnny Lang, Joe Bonamassa, Sheryl Crow e B.B. King (entre outros)

Há músicas que são eternas. Há músicos que são eternos. Há momentos que perduram para sempre e a história da música está cheia desses momentos. Felizmente. Qualquer dos nomes acima referidos já nos deu um momento desses, de forma improvisada, inesperada, inspirada. O momento retratado no vídeo é apenas um desses momentos, a diferença é que em vez de um interveniente, nessa noite incrível, em Chicago, todos contribuíram para o resultado final, que espelha como gente sobredotada também se diverte, se emociona e sabe saborear um instante em que apenas se toca (muito) boa música. Foi em 2010, no Toyota Center.

Sobre o Crossroads Festival de 2010 (que Eric Clapton organizou para apoiar o Crossroads Center, um centro para o tratamento da toxicodependência que o próprio Clapton fundou em Antígua), escreveu Jon Parels, do New York Times: "while guitar heroes may be scarcer now, the guitar endures". What else?


Sobe em espiral o fumo
de um cigarro esquecido
no cinzeiro
formas azuladas
                                                  ondulando
uma mulher
braços no ar
uma dansa
hipnotizando
                                                   o ventre

Desvio
por um instante
 os olhos
- os meus dos seus -
da silhueta
que se eleva
difusamente no ar
embalada
silenciosa
por notas vagas
                                                de saudade

Sem naufrágio
desperto por instantes
- onde estás, alma minha? -
olho em redor
a transpirar
sem delirar
sem desejo nem suspiros
somente
                                             num estado puro

[tv off]




22 de abril de 2018

Music

Gustav Holst, The Planets, Op. 32



Poucas obras terão merecido tanta repulsa do seu criador quanto a gerada por "The Planets" a Gustav Holst. Passe o exagero, "The Planets" é uma obra composta sem se destinar a qualquer programa específico e, ao contrário do que se possa supor, não tem qualquer conexão com a mitologia romana para além da coincidência com os nomes dos planetas. Não tem, por isso, nada que ver com a astronomia, mas sim com a astrologia e os horóscopos. Diz-se que a peça nasceu um pouco ao acaso e foi sendo composta sem grandes balizas, por Holst entre 1914 e 1916, embora a estreia apenas tenha ocorrido em 1920. Nas palavras do próprio:


"were suggested by the astrological significance of the planets. There is no programme music in them, neither have they any connection with the deities of classical mythology bearing the same names. If any guide to the music is required, the subtitle to each piece will be found sufficient, especially if it be used in a broad sense. For instance, Jupiter brings jollity in the ordinary sense, and also the more ceremonial type of rejoicing associated with religions or national festivities. Saturn brings not only physical decay, but also a vision of fulfillment. Mercury is the symbol of the mind."

Cada um dos movimentos representa um poema (a obra é composta por sete poemas tonais) alusivo a cada planeta do sistema solar (não existe nenhum movimento para a Terra nem para Plutão, que à data ainda não havia sido descoberto). A convulsão dos movimentos planetários em torno do Sol gera um estado de espírito diferente que se liga intimamente à simbologia do zodíaco, quanto aos nomes que coincidem com os dos planetas do sistema solar. A peça é contemporâna com o impressionismo musical do início do Séc XX e constiuti uma obra maior pela extensa palete de tonalidades e estados de espírito que encerra na sua representação. Há quem diga que se trata de uma alegoria ao tumulto de própria vida e do ser que cada um traz fechado dentro de si. Interpretações à parte, em termos musicais é uma peça muito variada e rica.

Acusticamente há versões melhores que outras mas, dizem os entendidos, a melhor é aque consta deste vinil. Também existe uma versão disponível no Spotify (embora com uma acústica não tão boa em resultado da compressão do sinal). 



you are the moonglow
that lights the night
the kiss of springtime
a flame
that never dies
the dearest thing
that cannot be denied

you make me walk
as if I am dancing
the diffuse matter
that makes me sleep
as if I am dreaming
or freaking

or simply being amnesic

9 de abril de 2018

A colloquial reluctance to assimilate a soliloquy

Jacqueline du Pré, 
Edward Elgar, mov. 1 concerto para violoncelo en Mi menor op. 85
(maestro: Daniel Barenboim, Londres, 1967)

Did I dream? was I ever you
Or was it my inefficient imagination
my cynical optimism
my baroque contradiction
my own contingency
[whatever]
imagining that you once were me?

Why bother to know
such obnoxious eloquence
and fluent speech
crambled with cherries
and strawberries
when all such imperfect
gentrified formulation
and verbal masturbation
can merely achieve
an ambiguous festival of silence?

I see white words
floating on dark screens
poetry drown in modernity
and sarcasm
words full of hormones
men and women
all alone
with a single purpose
to marry
Tom or Jerry

Where is veracity?
or the capacity
to explain reality
Is it methodology?
or mythology?
a simple theory
perhaps a cursed soliloquy
to describe this pile of debris
with no cerimony
or drudgery

Love will always be a mistery




22 de março de 2018

Sincere pollution

Diffuse matter
a circumstance
a surprise
I close my eyes
before intubation
stabilization
circulation
ressurrection

silence
a gentle whisper
extinguished warmth
forgotten lips

Fixation

I'm dancing
and loving
to melt a storm
but now
I've found
it is too late
so late

this afternoon
the thrill has gone
love is old
nights are cold
the moon is gone
so soon
gone

In vain
I pretend
this is the end
no seaside
no shore
no poems
an empty space
between the stars
crack
the thrill is gone

(revisiting Patricia Barber) 

5 de março de 2018

instante na cidade

havia um ruído
de nada na terra
interrompido por
um tremor de passos
irrompendo 
na paisagem verdejante 
como nas páginas de um romance
Crianças 
surpreendidas pela chuva
respirando alegria 
Gotas de riso espalhadas num instante
fugaz 
calando o Silêncio da cidade
onde sonhos semeiam
semanas povoadas de torpor humano
soberano 

sopra humildemente 
o Vento do momento




21 de fevereiro de 2018

rain

Love in a raindrop
After the storm
a heart
Sadly echoing
on a guitar

I see your eyes
I see emptiness

3 de fevereiro de 2018

Espuma do tempo

Que espinhos semeia o amor
no caminho sobressaltado da vida
vergado pelo uivo do vento
e o rasgar das ondas no mar

O espírito sopra o vento
do destino, livre,
puro, como a espuma
branca na areia

O amor, a virtude sem pecado
sem crime ou castigo
vive ao lado
em silêncio.

Procuramos em olhos alheios
os beijos calados por que anseiam os lábios
as mãos invísiveis à procura de um corpo
inflamado pelo alento do amor

são assim as Almas gémeas
perdidas
no silêncio
distantes no tempo




29 de janeiro de 2018

O cavalo de Heitor (ou a arte de amar segundo Ovídio e Apuleio)

Étienne-Maurice Falconet (1716-91), Cupido


"não deixes para trás a tua parceira, desfraldando mais largas velas,
nem seja mais rápido o ritmo dela que o teu;
avançai para a meta ao mesmo tempo; então, será pleno o prazer,
quando, par a par, jazerem, vencidos, a mulher e o homem.
Esta é a prática que deves cultivar, sempre que te seja dado desfrutar livremente
do ócio, e o medo te não forçar a aventuras furtivas."



Ovídio, Arte de Amar, versos 703 e seguintes do Livro II