20 de Novembro de 2009

Staff Benda Bilili

4 de Novembro de 2009

2666




Os vinte minutos iniciais tiveram um tom trágico onde a palavra destino foi usada dez vezes e a palavra amizade vinte e quatro. O nome de Liz Norton foi pronunciado cinquenta vezes, nove delas em vão. A palavra Paris foi dita em sete ocasiões. Madrid, em oito. A palavra amor foi pronunciada duas vezes, uma por cada um. A palavra horror foi pronunciada em seis ocasiões e a palavra felicidade numa (empregou-a Espinoza). A palavra resolução foi dita em doze ocasiões. A palavra solipsismo, em sete. A palavra categoria, no singular e no plural, em nove. A palavra estruturalismo, numa (Pelletier). O termo literatura norte-americana, em três. As palavras jantar e jantamos, pequeno-almoço e sandes, em dezanove. As palavras olhos, mãos e cabeleira, em catorze. Depois a conversa tornou-se mais fluída.

Roberto Bolano, 2666
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A escrita tem coisas espantosas. Pegue-se no diálogo transcrito acima, por exemplo, da autoria do chileno Roberto Bolaño, onde o próprio autor utiliza um método quantitativo para analisar o excerto do diálogo entre dois amigos filólogos. O número associado à palavra revela um grande domínio desta, de tal forma que a estatística se constitui como um método para acentuar uma ideia, ou apenas para subtilmente a introduzir na narrativa. Por si só, o exercício constitui um recurso literário fabuloso, pela liberdade que proporciona ao autor. Mas há mais. Para melhor o exemplificar refira-se que, há dias, Saramago referia, a propósito do dilúvio de críticas que se abateu sobre Caim, que mais não fez que analisar a bíblia sob um ponto de vista puramente linguístico, olhando apenas para as palavras e para a sua sequência, posição e organização. Não teceu considerações morais, nem nenhumas de outra natureza especial. A análise da palavra no seu estado puro, portanto, numa perspectiva meramente linguística ou literária, se assim preferirmos. Eis então o que há de especial em Bolaño, a perfeita escolha das palavras, não meramente no aspecto qualitativo, mas sobretudo - não vá o leitor estar distraído - no quantitativo. A mesma palavra assume-se como verbo, nome e adjectivo, liberta-se das convenções, torna-se fim e princípio, como o algarismo num número composto.
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Mas há mais: se nos abstrairmos da estatística que a mera contabilidade das palavras constitui e pegarmos numa ferramenta como o Wordle, por exemplo, é possível reutilizar o método estatístico para criar composições literárias a partir de textos nos quais as palavras mais predominantes são visualmente salientadas, permitindo de forma mais ou menos directa fixar as suas principais ideias e matrizes. E então a palavra assume um conteúdo gráfico e visual, sem se esvaziar, porque se mantém intacta, porventura livre de amarras emergentes de leis gramaticais.
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Eis-nos então a olhar para 2666 sob o ponto de vista estético. E quanto ao conteúdo? Proust disse a dada altura que a prova de que estamos perante um grande escritor reside no facto de a sua escrita nos surgir imediatamente como feia. Na verdade, apenas escritores mais medíocres devem escrever maravilhosamente, uma vez que eles simplesmente procuram reflectir a nossa pré-concebida noção do que a que beleza é; não temos qualquer problema de compreender que um escritor medíocre o é, dado que já lemos o que escreve, se não nas suas páginas, pelo menos nas de outro, muitas vezes, anteriormente. Quando um escritor é verdadeiramente original, o fracasso em ser convencionalmente atractivo faz-nos vê-lo, inicialmente, como disforme, desajeitado, ou até perverso. Só depois aprendemos como lê-lo e então percebemos que a fealdade da escrita é realmente um novo tipo, totalmente inesperado, de beleza e que aquilo que parecia errado na sua escrita é exactamente o que o torna grande.
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Isto aplica-se a 2666. E aplica-se à forma, ao posicionamento, mas igualmente ao conteúdo das palavras no texto. Olhe-se por que perspectiva se olhar, à décima página estamos definitivamente agarrados como a uma maldição da qual não queremos libertar-nos. A este propósito, a Slate afirmou que 2666 é a trajectória do universo no limiar do apocalipse. Sem dúvida. Mas acrescentamos que é o apocalipse de Bolaño, mergulhado no mais íntimo do seu incontornável legado: o seu próprio sangue.

25 de Outubro de 2009

Esta madrugada: 360º Live global webcast

Concerto de 25 de Outubro, Rose Bowl, LA

U2.com > News > Interactive 360

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18 de Outubro de 2009

'A flor máis grande do mundo'

A Inês enviou-me uma mensagem muito bonita. Fui lê-la e tive uma surpresa, que partilho convosco. Espero que gostem, como eu gostei. Obrigado filha.


6 de Outubro de 2009

"Tout est lié. Tout est vivant. Tout est interdependant". Com esta citação começa "Le viol de l'imaginaire", 2002, livro escrito por Amina Traoré, antiga Ministra da Cultura do Mali, à margem do Forum Social de Porto Alegre, realizado em 2001, aquele acerca do qual Boaventura de Sousa Santos afirmou ser o princípio do futuro.


C’est tel un tambour à l’aube des temps nouveaux que l’appel de Porto Alegre m’est parvenu. Mon cour de femme africaine, qui sait pourquoi il pleure, s’est alors mis à chanter l’esperance en exprimant mon rêve d’alternative à haute voix. Nous étions venus des milliers dans la capitale du Rio Grande do Sul (Bresil), munis de nos histoires de vie individuelles et collectives que nous voulions désormais différentes. Nous nous côtoyons - Rouges, Noirs, Blancs, Jaunes - en peuples arc-en-ciel - et solidaires dans cette quête commune d’un monde meilleur, conscients, fiers et respectueux de nos différences qui font le sel de la terre. Je me sentais de mon peuple, de mon continent et de ce monde de "quêteurs" de liens et de sens à la vie. Et je me sentais bien.
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No livro, Amina denuncia a voracidade do liberalismo e do racismo dos tempos coloniais e ao mesmo tempo o neo-liberalismo e o neo-racismo pós-coloniais, ideias que acentua numa obra escrita en 2004, "Lettres d'une Africaine à la France". Os seus discursos indiciam um combate pela dignidade, pela igualdade e pelo transnacionalismo africano cuja unidade e dignidade procura defender contra a ideia da piedade por África, afinal e em última análise o factor primordial em que assenta o mais enraizado racismo europeu, fonte do falhanço do continente, que é apenas igualado pelas políticas desastrosas do FMI, do Banco Mundial e da corrupção de alguns governantes africanos. Donde, para Amina, o falhanço actual de África assenta na ruína de três ideias, a saber: a económica, a política e a falha civilizacional, cuja correcção constitui a chave da resolução do problema e do princípio do futuro. À data, Amina preparava o Forum Social que decorreu em Bamako, Mali, em 2006.
Concorde-se ou não, as ideias de Amina merecem ser debatidas, repensadas e articuladas num contexto de relacionamento entre continentes, mas sobretudo entre gentes que são transcontinentais, sobretudo porque encontram reflexo numa forma de pensar que, no que nos interessa, pode ser africana, sul-americana ou asiática. Mas sobretudo, porque constitui uma maioria entre as minorias, o sentir africano não se cinge hoje aos africanos de e em África, mas aos muitos milhões que povoam a Europa do presente e que se sentem traídos no passado, alimentando um profundo ódio que abraça e alcança o futuro, hipotecando-o enquanto semeia as bases de uma discórdia que a breve trecho se não resolve. A falta de informação gera a incompreensão, a crise de identidades e o conflito, que apenas acentua a ruptura e a violência. No limite, o maior flagelo, a flor do racismo, desabrocha nestes confrontos ideológicos onde a intolerância se revela total e onde a herança cultural, a religião e raça procuram forjar heranças que mais não são que traços defensivos que assentam em identidades que, como dizia Amin Maalouf, se revelam, afinal, assassinas.


Diego Stocco Sound Design Video Reel 2008 from Diego Stocco on Vimeo.

Já aqui se falou do som das cores ou da cor do som. E nessa medida tudo à nossa volta seria som, ou antes tudo seria cor. É absolutamente irrelevante, na medida em que os dois universos se confundem e catalogar uma das duas realidades tornar-se-ia impossível, porventura, no limite, um absurdo. Mas será assim mesmo? E se, as próprias palavras, adquirindo um ritmo e sons próprios, também tivessem cores? Ou se as cores tivessem palavras? Múltiplas palavras? E um poema ou um texto pudesse ter uma conotação pictórica? Afinal, não raras vezes dizemos que um livro é cinzento, ou que determinado autor é pesado, como se o peso em si pudesse definir a densidade das palavras.
E se agora se imaginasse que tudo à nossa volta, em vez de cor e som, fosse... música? Ou seja, como se o som das coisas, a reverberação de cada corpo, pudesse ter múltiplas notas musicais com as quais fosse possível compor paletes de sons, que por sua vez pudessem permitir a criação de composições, sinfonias, concertos? Imagine-se uma composição composta com o som de passos num soalho, ou de areia do mar a cair sobre diversas superfícies, ou uma árvore de um jardim, ou até um instrumento musical utilizado de forma completamente diversa daquela para a qual foi criado. Um exemplo descrito na primeira pessoa:
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Imagine-se a infinitude de possibilidades que o sampling dos sons do mundo poderia ter se, adaptado numa realidade musical que combinada com o código das cores e das luzes, pudesse criar uma dimensão nova e paralela com a nossa. Delírio puro, pensar-se-ia. E no entanto, Diego Stocco - um auto-intitulado sound designer - vem fazendo isso há alguns anos a esta parte. Goste-se ou não, o resultado tem um impacto a que não se consegue ficar indiferente.
O vídeo acima é uma mistura de vários vídeos de Stocco.

1 de Outubro de 2009

360º C à sombra

A melhor banda do mundo regressa a Portugal em 2010, com zero emissions.

28 de Setembro de 2009

Cai o pano

(e depois do pano cair)
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Tu não entendeste
a importância de um corpo metamorfoseado
em silêncio a cada grito calado
no reflexo dos amanheceres calcários da cidade

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Tu não entendeste
a relevância de cada percurso nómada
ou o contorno longínquo dos sopés
irrigados de orvalho e geada em deriva lenta

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Tu desdenhaste
os meus amanheceres imperfeitos
à beira de um rio imaginário
sem atenderes ao movimento dos meus lábios
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Tu
somente as esquinas maquilhadas

das avenidas do mundo

25 de Setembro de 2009

XI Encontro de Música Antiga de Loulé

A XI edição começa hoje e prolonga-se até 25 de Outubro. Imperdíveis deverão ser os espectáculos desta noite, em Quarteira, mas igualmente o espectáculo de homenagem a Handel de 4 de Outubro, na Edifício Duarte Pacheco, em Loulé e o Concert Brisé de dia 16, na Igreja de Querença.
olhar o Mar
sem pensar
é tudo o que sei fazer
sem acreditar em nada
sem tocar na água
antes Arder

[aquáticas palavras]
em lume brando
a 25 de Setembro

24 de Setembro de 2009

Hoje vi-te
meio assassinada
um rumor
mais nada

23 de Setembro de 2009

Às voltas na blogosfera


felicita sala é romana e estudou filosofia. ouve nick cave, tom waits, seu jorge, ojos de brujo, aquaragia drom, moni ovadia, nino meloni, chavela vargas, cocorosie, harry belafonte, midlake, j. tillman, beirut, massimo giangrande, la rue kétanou, camarón de la Isla, portishead, architecture in helsinki, the dirty three, roots reggae, beck, björk, françoiz breut e klezmer. não se pode portanto falar de mau gosto musical. e para além do mais, pinta. muito bem. vale, pois, a pena passar demoradamente pelo babouche rouge.

17 de Setembro de 2009


A vida escoando-se em torrente
Ruin
uma dispersão em que medito
is when man-made
sem nostalgia
becomes part of nature

Lazila pertencia à classe de mulheres que trabalhava na aldeia. Nunca tinha tido filhos e um acidente na infância privara-a dessa possibilidade, pelo que nunca um homem a tomara. O pai, primeiro, e a mãe a seguir, morreram de desgosto e cada uma das irmãs foi partindo, melhor dizendo levadas, pelos estrangeiros de passagem pela aldeia, que a troco de umas moedas descansavam a consciência do soba. Lazila não. Os seus olhos, espessos como ameixas, inspiravam receio nos homens, ao ponto de um deles se ter oferecido para a matar. O soba pensou, mas pareceu-lhe que dispender umas moedas para isso seria um desperdício. E para além do mais, quem iria buscar água ao rio, ou levar o gado a beber na secura do estio?
O ancião, acocorado à porta da palhota, deixou cair um punhado de grãos na poeira do solo e ficou a olhar para as pequenas bolas espalhadas. O conhecimento exaustivo ditado por centenas de arremessos permitiu-lhe afirmar com segurança que não choveria nessa semana. Nem talvez nesse mês e dentro de dias o rio secaria, trazendo consigo os gafanhotos que devorariam a colheita e picariam os animais, espantando-os para longe.
Chamou Izam, o filho do soba, entregou-lhe uma vara e mandou-o procurar água longe. Que levasse Lazila consigo. Ao cair do dia ela regressou, sozinha, à aldeia, trazendo uma cabaça de água equilibrada na cabeça, um fino fio de sangue escorrendo pelo canto do lábio. O soba arremessou novamente os grãos e entoou um canto fúnebre quando a fogueira foi avivada. A vida prosseguiu em seguida. O lábio de Lazila cicatrizou e a seca nunca chegou.

Road to 40

14 de Setembro de 2009


Soa a deja vu e no entanto é um filme novo numa sequela que demorou mais de vinte anos a produzir. Um elenco de luxo foi mobilizado, recheado de actores e figurantes do lado de cá e de lá do Atlântico, ao nível das mais ambiciosas produções da Globo e da RTP. O realizador anterior mudou-se para o Cazaquistão com a sua santa (não sem antes passar por Londres, entenda-se) e foi substituído. Pelo caminho foi reunido o orçamento de uma superprodução sem equivalência anterior. Estreia em 2010, mas pode haver já uma ante-estreia em 2009. A não perder, num estádio perto de si.

6 de Setembro de 2009

... o tempo e o vento
correndo em paralelo
entre as dunas e os canaviais
Assim fui aprendendo
que a tua boca
[a] nada sabe
como um espaço sem tempo
como um tempo sem lugar.
...
Desistiu. Alícia Aguado não atendera apesar da insistência de Consuelo Jímenez. Refugiou-se do calor e dos pensamentos que a perseguiam numa bodega onde o vinho tinto era correctamente servido muito abaixo da temperatura ambiente de Sevilha. Pediu um tinto de veraño, depositando no conteúdo da taça refrigerada a confiança de bons conselhos na organização dos seus pensamentos.

22 de Agosto de 2009

Livrarias do mundo

14 de Agosto de 2009

Luc Arbogast

Luc Arbogast joue une musique inspirée de la France médiévale et surtout de la tradition paysanne où se chevauche mélancolie et spiritualité. Ce musicien autodidacte manie le clair-obscur avec ferveur et beaucoup de sincérité. Il s'inspire parfois de cantiguas de Santa Maria et de lieder de Walter von der Vogelweide, de Hildegard von Bingen, ou de Guillaume de Machault.On dit qu'il a également le secret de nombreux morceaux chantés traditionnels réarrangés par ses soins ou composés par lui, tel un branle double mélancolique chanté en français, qui aborde la mélancolie de l'enfance perdue, par un texte plus contemporain ainsi que des chants inspirés de scénes du quotidien de la vie du moyen-âge au début du xxeme siècle: Chants de quète, amour courtois, deuil, mariages...

21 de Julho de 2009

They're back e em 3D Digital