11 de agosto de 2026

Insónias

Tenho uma pena com linguagem própria
um frenesim de sonho único
um silêncio telúrico
de ossos abandonados
e andaimes de néons enferrujados.

Quando lhe pego
Fecho a persiana
como as páginas de um livro ao adormecer
sem tentar perceber
se a tinta que dela sai é amar ou uma vasta insónia

ou isto.
Que nos apartou do mundo há séculos.

Hoje
está nortada. É verão,
na véspera de um eclipse solar, 
no qual só eu repararei na Lua cheia
ou distrair-me-ei com os barcos
em sobressalto. Ao crepúsculo
sinto o mar próximo
e o cheiro que me eleva o fulgor dos sentidos
despertos pelos versos que o vento escreveu nas dunas.
Soluço

nesse instante sísmico do mundo.

4 de agosto de 2026

Dissipação

A cidade nasceu e talvez por isso todos riem
esquecem o esquecimento, as brumas
que cobrem a terra e escondem o céu
enquanto o tempo se renova sem escarcéu.
Respiro-me no ar, emancipo-me na luz
Fecho os olhos, eternizo-me na luz do atardecer

Fixo o olhar na etiqueta do disco que roda
enquanto me perco dentro de mim próprio
com saudades de sonhar
o tempo em que amei e aos outros foge
enquanto sobre mim cai, desde ontem,
soprado pela brisa do Levante.

C'est pas moi, apenas espuma 
que me arrepia de pavor da bruma
a luz que decai no sortilégio do voltear crepuscular
da manhã que entretanto anoiteceu.
Amanhã a cidade renasce e por isso todos riem
enquanto nela me ilumino, participo e dissipo.