Adultos, crianças
com fervor humano
Pende para Sul um peito inundado de vento
Há um poema, um olhar
um adormecimento sereno
um futuro a aguardar
um estremecimento perene
Um amor sem falhas
Versos em branco
por completar
com palavras por rimar
Um poema sem fagulhas
infinitamente à deriva no mar
Um poema em aberto.
Hoje, sem grande convicção, apetecia-me,
uma dose abreviada de superficialidade
Rudimentos de navegação aérea
para bater asas e seguir cartografias nietzscheanas
manter a ordem kantiana das coisas categóricas
ordenar o show da vida numa icónica desarrumação
Plagiar silêncios alheios
virar Roma ao contrário até ser verdade
Dobrar os dias até se tornarem côncavos
e mentirem melhor que a lua.
Uma coisa. Qualquer coisa.
Procurei-te nas estrelas
Pedi-te às montanhas
Mas só a solidão
e a paz breve
da certeza do mundo ser
um engano de deus
Sei o que é não voltar
ao nascer do sol
O sol pode cair
reerguer-se
Mas para nós, quando a luz se extingue,
Cabe-nos dormir uma noite infinita.
Queimamos o amor
arquivamos o desamor
centrifugamos o coração
sangramos as veias
sacudimos as teias
acenamos com a mão.
Sorrimos.
Entregamo-nos às constelações.
No espaço entre dois nomes
cabe o mundo
o mundo e um poema
o mundo, um poema e a morte
A linha da vida
um substantivo entre dois polos
um remoinho
O caos
um sopro de sal grosso
uma assimetria
uma arritimia
Cabe um canto de Sul
O canto pequeno
das pequenas coisas
Um sonho que se esvai
e desvai na desordem do cais
uma curta canção
uma carta vazia
um poema
um repoema
um começo
um recomeço
O aconchego de ecos gramaticais.
Um suspiro
talvez dois.
extensões sombrias de luz
vulcões desassombrados
Nietzsche vocifera
retorno
ativo
O mar da minha alma é um labirinto de ondas que se entrelaçam e se desfazem, de crepúsculos que se desvanecem e renascem.
A embarcação da minha mente balança sobre águas inquietas
à procura de margem que nunca alcança.
A verdade e a ilusão confundem-se no jogo de luzes e sombras que o luar cria sobre o mar.
E eu, o navegador solitário, pergunto-me se o que vejo é real
ou uma ilusão do mar da minha alma