8 de maio de 2026

O outro lado

Mesmo antes da cortina de água
que a noite fará desabar
do assobiar do vento nas copas das árvores
da mudança cromática da paisagem
antes de se fechar a gaveta da semana
Há ainda tempo para estender a mão
pegar no telefone e perguntar
se estás onde penso que existo.

Nesse centro sísmico do mundo
num espaço de tempo fechado
eternamente fugaz, onde se pode mergulhar
Ou bater asas e levantar voo
o murmúrio do silêncio da linha adensa-se
confunde-se com o vento
a voz e a vénia dos ciprestes
que guardam as alamedas da cidade.


O que há do outro lado da linha? 

As coisas da vida: os ventos do Carlos

 


[Carlos Brito, Coisas da Vida]

6 de maio de 2026

dA coerÊncia de um poeMa

 (assumindo que o poema sou eu, real, ideológico, transparente)

Com a mão direita escrevo de forma ardente
melancólica
silenciosa
Odes à lua, à demência do coração
No recesso de cada estação
tento em vão
substituir o sangue pelo mel
acalmar arritmias

Com a tinta dourada de um poema
Disfarçar a idade com que escrevo
Dar sentido à raiz dos dias
e à espessura das coisas esquecidas
iluminar os poros da pele
com a luz que se derrama de um sorriso.

Com um dedo da mão direita escrevo de novo
de forma ardente
o teu nome na poeira de uma janela
batida pelo vento.


23 de abril de 2026

Poema 52


Um ruído no amanhecer
uma surdina a nascer da terra
um tremor de passos crescente
irrompendo sem quartel
das calçadas dos quartéis
espalhando-se pelo ar,
as cidades e as serras
a planície verdejante 
como páginas de um romance

Adultos, crianças 
armados de cravos
e contagiante alegria 
improvisando poesia
e um novo país
onde sonhando se semeou
com fervor humano
um ardor soberano 
E se calou o silêncio

E depois do Adeus
sopra fortemente
o Vento desse momento

21 de março de 2026

Poema branco

Há um poema, um olhar 
um adormecimento sereno
um futuro a aguardar
um estremecimento perene
Um amor sem falhas
Versos em branco
por completar
com palavras por rimar
Um poema sem fagulhas
infinitamente à deriva no mar

Um poema em aberto.


5 de março de 2026

Desditas

A voz que não sai do canto
um grito apertado num rincão escondido
Versos que nascem, erguem-se a pique
e de seguida chovem em pranto

A vida de rimas me salpique
o silêncio apócrifo do destino

A embriaguez de simplesmente existir
numa injustiça sem tino

26 de fevereiro de 2026

Os dias

Hoje, sem grande convicção, apetecia-me, 
uma dose abreviada de superficialidade
Rudimentos de navegação aérea
para bater asas e seguir cartografias nietzscheanas
manter a ordem kantiana das coisas categóricas
ordenar o show da vida numa icónica desarrumação
Plagiar silêncios alheios
virar Roma ao contrário até ser verdade
Dobrar os dias até se tornarem côncavos
e mentirem melhor que a lua.
Uma coisa. Qualquer coisa.

19 de fevereiro de 2026

Kairos


Em passo lento observo
os Pais Nossos desta terra
debruçados à janela
aspirando o ar
de poemas a latejar
tateando a fugidia alegria
da claridade do dia
a obstinada existência da vida.

Fixo naqueles que estão no céu,
o olhar do sol que se põe
como uma chama que se extingue
sobre a água do estuário
enquanto deambulo incréu
de sílaba em sílaba
de cinza em cinza
pelo envelhecer dos séculos

E assim ergo
o templo de um tempo trémulo,
ambíguo, ausente
que não é o meu.

18 de fevereiro de 2026

Entardecer

Procurei-te nas estrelas
Pedi-te às montanhas

Mas só a solidão
e a paz breve

da certeza do mundo ser
um engano de deus

Sei o que é não voltar
ao nascer do sol 
O sol pode cair
reerguer-se
Mas para nós, quando a luz se extingue,

Cabe-nos dormir uma noite infinita.

9 de fevereiro de 2026

Vida



Queimamos o amor
arquivamos o desamor
centrifugamos o coração
sangramos as veias
sacudimos as teias
acenamos com a mão. 

Sorrimos.
Entregamo-nos às constelações.

6 de fevereiro de 2026

Dias longos



Dias longos
de momentos que percorro
e perco na vertigem de cada instante
Dias longos
longe de mim próprio
na amálgama do tempo distante

O silêncio do eco constante da partida
o mar que pressinto por detrás de cada poema
o silêncio sinónimo da vida.

3 de fevereiro de 2026

À Jacinta (companheira dos meus dias)




És a mais silenciosa
A mais furtiva, a mais aventureira
Fazes o dia entrar na noite
Partes ao luar
Chegas ao amanhecer
andar de pantera
olhar indecifrável
que em vão procuro entender.
Não me falhas
procuro-te. encontro-te. apareces
O teu dorso condescende-me uma carícia
com a mão que afofo quanto posso.
Procuro repelir o teu isolamento
Conquistar-te
mas sei-te impossível
A tua existência
é um verso que quero que perdure.





 

14 de janeiro de 2026

Hipérbole vã

Na palma da mão guardo uma pedra
fria, rude, gasta pelo vento
que o silêncio amadurece e medra
cravada no meu pensamento.

Hipérbole vã, cansaço mudo
expressão de ausência profunda
onde o peso de um seixo é tudo
e tudo de mar se inunda.

A voz transborda o que o peito contém
O deserto que a alma tem
O resto é um sempre que nunca vem.

30 de julho de 2025

Infusão

No espaço entre dois nomes
cabe o mundo
o mundo e um poema
o mundo, um poema e a morte
A linha da vida
um substantivo entre dois polos
um remoinho
O caos
um sopro de sal grosso
uma assimetria
uma arritimia

Cabe um canto de Sul
O canto pequeno
das pequenas coisas
Um sonho que se esvai
e desvai na desordem do cais
uma curta canção 
uma carta vazia
um poema
um repoema
um começo
um recomeço

O aconchego de ecos gramaticais.
Um suspiro
                                                              talvez dois.



Tarde

Já se faz tarde
Há apenas silêncio 
umas horas de silêncio
à exceção da estridulência das gaivotas
Não há pão
não há vinho
só um leito para dormir sozinho
O odor de cigarros apagados
Encontros, desencontros
Contos passados
cada um à sua vida
Já se faz tarde.





25 de junho de 2025

Azul


Céu azul, céu de cinza, 
Um horizonte que a vista não alcança. 
Onde a cor se esbate, e só a alma chega, 
Numa dança fluída de suave esperança. 

Indiferente, um mar em pensamento, 
Onde o vento sopra, sem forma ou lugar. 
Aves deslizam lentamente 
em silêncio, cruzam o ar. 

Na maré vaza, entre a erva espreita, 
um quadro de vida a brotar 
A calma de uma manhã perfeita, 
E a leveza de se ser, de apenas estar.

3 de março de 2025

Fajã Poente



Chão vivo
Sopro de vento
o Mar
vira-me o rosto

extensões sombrias de luz
vulcões desassombrados
Nietzsche vocifera 
retorno
                                                                         ativo
                   

16 de fevereiro de 2025

Silêncio

Todos os dias faço uma idade
não digo a ninguém
Não falo
aspiro o ar sibilante
de cristais de diamante

Noite fora, fria e nua
Levanta-se a lua
toco nas estrelas
desfio enredos planetários
grito ao vento da rua

Desperto
alguém que é alguém
dedos em laço
um organismo de sonho
estremeço. Floresço


23 de novembro de 2023

Let me...


Let me show you how to fly
hold you gently by the hand
kiss your tears goodbye.

Let me show you the light
lead you out of needless rain,
see you smile again.

Let me sing you all the songs I wrote
til you sleep in my arms
and awake with the sunlight in your face.

Let me bring you up the mountain
see you touch the skies
smile while I look into your eyes.

Let me help you sail
like a butterfly 
gifted with pretty wings.

Let me do all these to let you see
You're the precious gem
the earth and the sky 

So fly with me,
and then stretch your wings
I'll be here.

[From a father to a daughter]