Sentado na gare observo os dias a arrotar de pessoas que não se encontram,
em particular dois exilados de ventre inchado alojados em hotéis baratos de Santa Apolónia,
ambos de corações danificados, carregando malas cheias de rabiscos velhos
mapas que não levam, em todo o caso, a rigorosamente lugar algum.
Há neles uma geometria do desencontro, um cálculo preciso
inscrito como traços no asfalto molhado do padrão de uma maldição
testemunhada presencialmente por cada gerente da noite
— gerentes do lado errado da noite - de cada bar cujas portas franquearam
Na manhã de uma terça-feira que cheira a combustível e a promessas quebradas,
é como se acordássemos à procura do reflexo de alguém que já partiu,
ou que talvez nunca tenha existido, a não ser como vulto num bar de beira de estrada
onde a jukebox toca uma canção que sangra silêncio.
O tempo não é um rio, é uma sequência de corredores escuros,
e nós somos os detetives selvagens que perderam a pista da própria sombra.
Passamos por nós mesmos na esquina das avenidas fingindo que não nos reconhecemos,
E que cada desencontro é, na verdade, uma forma de libertação.
Mas a verdade, essa puta cruel, sussurra ao ouvido dos poetas vencidos:
os dias são apenas o ruído que resta depois de todos os amigos que se foram,
depois que a última biblioteca foi saqueada pelo pó,
e o único rastro deixado na poeira do tempo é a memória de uma carta que nunca escrevemos.
E assim, entre um cigarro acendido noutro, enquanto a cidade se desintegra em néon,
continuamos à espera.
Não por alguém, nem por algo,
apenas pelo momento em que o desencontro
finalmente se transforme na única pátria que nos resta.
