A alma tinha clara como um poema contínuo
atravessado de vozes leves e sussurros discretos
como a silenciosa poeira que assenta sem tremer
oferecendo formas rápidas de declamar o esquecimento.
É assim que nascem as canções
e se evaporam os sentimentos, como o vento
e a areia se escapam entre as mãos abertas
independentemente da pureza do amor.
É assim a imagem doce de um eco sobre a pele,
uma luz breve pousada na memória indelével
porque o que nunca passa não morre
e acentua o cantar na ausência.
SUL
Pende para Sul um peito inundado de vento
6 de novembro de 2026
A alma tinha clara
11 de agosto de 2026
Insónias
Tenho uma pena com linguagem própria
um frenesim de sonho único
um silêncio telúrico
de ossos abandonados
e andaimes de néons enferrujados.
Quando lhe pego
Fecho a persiana
como as páginas de um livro ao adormecer
sem tentar perceber
se a tinta que dela sai é amar ou uma vasta insónia
ou isto.
Que nos apartou do mundo há séculos.
Hoje
está nortada. É verão,
na véspera de um eclipse solar,
no qual só eu repararei na Lua cheia
ou distrair-me-ei com os barcos
em sobressalto. Ao crepúsculo
sinto o mar próximo
e o cheiro que me eleva o fulgor dos sentidos
despertos pelos versos que o vento escreveu nas dunas.
Soluço
nesse instante sísmico do mundo.
4 de agosto de 2026
Dissipação
A cidade nasceu e talvez por isso todos riem
esquecem o esquecimento, as brumas
que cobrem a terra e escondem o céu
enquanto o tempo se renova sem escarcéu.
Respiro-me no ar, emancipo-me na luz
Fecho os olhos, eternizo-me na luz do atardecer
Fixo o olhar na etiqueta do disco que roda
enquanto me perco dentro de mim próprio
com saudades de sonhar
o tempo em que amei e aos outros foge
enquanto sobre mim cai, desde ontem,
soprado pela brisa do Levante.
C'est pas moi, apenas espuma
que me arrepia de pavor da bruma
a luz que decai no sortilégio do voltear crepuscular
da manhã que entretanto anoiteceu.
Amanhã a cidade renasce e por isso todos riem
enquanto nela me ilumino, participo e dissipo.
28 de julho de 2026
Rosa
A rosa mais ténue
a que tem mais peso e fragrância
que se veste de negro de noite
e ressurge platónica pela manhã
a rosa da arte da alquimia
de Cartola, dos persas, da imortalidade do verão
A rosa mais ténue
a rosa das rosas, a que canto e não canto
na Alba
e que resplandece a todas as horas do dia
Definitiva.
Lēthē
A uma hora incerta vi
a Lua cheia no firmamento
relevo de vales e montanhas
estrelas em redor de Vénus
Júpiter e Marte
Vi um mar de estrelas a dividir-se ao meio
para deixar passar Moisés
Vi
mundos que não vira
até o nascer do Sol me cegar e baralhar olhos,
mãos, rostos, mãos, a face oculta da Lua
onde existe o rosto de qualquer um
Sonhos
onde caberia o Quinto Império
se eu fosse um contador de histórias
em vez de um contador de Livros
e tivesse a memória de uma espada
e não um ser que se entrelaça
e fecha no aposento de uma casa
Sou o que sabe não ser
um esquecimento, um eco de nada
do Tempo de tudo, de todos.
27 de julho de 2026
Syntagma
Deito-me no chão, na terra, respiro.
Sopro. O sopro ricocheteia na terra
de um país devorado pelo Sol
consumido num horto de incêndios.
Ao meio-dia corre um vento que seca
fissura a pele e apaga a memória
Estou cansado. Por entre o fumo
uma nesga de céu abafa o silêncio crepitante das chamas.
O mar lá longe, fechado na concha de um búzio
A imitar o eco de um peito submerso.
30 de junho de 2026
Noite
depois do dia se extinguir e os jardins prepararem
as vestes de corres garridas do dia seguinte,
e as flores a alquimia do encantamento dos insetos;
à noite pontuamos a memória, medimos a alegria
a tristeza, a transparência dos dias: a humanidade do mundo.
À noite tudo se torna claro, como a claridade
de um turbilhão de luz que forma um buraco negro
de substância suspensa, matéria orgânica giratória
formando um rosto que se ilumina e apaga devagarosamente,
uma boca que se abre e fecha crepitando palavras
que fluxam e refluxam espasmodicamente.
E rosas. Porque não rosas à noite? E música
com notas tão previsíveis como os elementos meteorológicos
ou as sombras ao cair do dia, ou ainda
a correspondência que nos cai pelo receptáculo da porta
à passagem do carteiro cujo nome desconhecemos.
Divagações sem nexo como a antimatéria das páginas
de poemas trémulos cheios de linhas e linhas despidas
que entoam a morte, o amor, os elementos, os filhos, as mães
a força e a falta dela, a sofreguidão, a urgência, a amargura e a doçura.
E tudo o mais. Porque à noite tudo se faz e desfaz. A água. O sal.
Todos os capítulos dos livros. O assombro e o desassombro.
10 de junho de 2026
Heaven can't wait
Se houvesse un céu, isto seria muito provavelmente o que lá estaria a tocar quando lá chegassemos:
29 de maio de 2026
Solilóquio emulando um desencontro entre Roberto Bolaño e Jorge Palma a uma terça-feira de manhã em Santa Apolónia
Sentado na gare observo os dias a arrotar de pessoas que não se encontram,
em particular dois exilados de ventre inchado alojados em hotéis baratos de Santa Apolónia,
ambos de corações danificados, carregando malas cheias de rabiscos velhos
mapas que não levam, em todo o caso, a rigorosamente lugar algum.
Há neles uma geometria do desencontro, um cálculo preciso
inscrito como traços no asfalto molhado do padrão de uma maldição
testemunhada presencialmente por cada gerente da noite
— gerentes do lado errado da noite - de cada bar cujas portas franquearam
É uma manhã de terça-feira que cheira a combustível e a promessas quebradas,
como se tivéssemos acordado à procura do reflexo de alguém que já partiu,
ou que talvez nunca tenha existido, a não ser como vulto, num bar de beira de estrada
onde a jukebox toca uma canção que sangra silêncio.
O tempo que passa não é um rio, mas uma sequência de corredores escuros,
e nós somos os detetives selvagens que perderam a pista da própria sombra.
Passamos por nós mesmos na esquina das avenidas fingindo que não nos reconhecemos,
E que cada desencontro é, na verdade, uma forma de libertação.
Mas a verdade, essa puta cruel, sussurra ao ouvido dos poetas vencidos:
os dias são apenas o ruído que resta depois de todos os amigos que se foram,
depois que a última biblioteca foi saqueada pelo pó,
e o único rastro na poeira do tempo é a memória de uma carta que nunca escrevemos.
E assim, entre um cigarro acendido noutro, enquanto a cidade se desintegra em néon,
continuamos à espera.
Não por alguém, nem por algo,
apenas pelo momento em que o desencontro
finalmente se transforme na única pátria que nos resta.
8 de maio de 2026
O outro lado
Mesmo antes da cortina de água
que a noite fará desabar
do assobiar do vento nas copas das árvores
da mudança cromática da paisagem
antes de se fechar a gaveta da semana
Há ainda tempo para estender a mão
pegar no telefone e perguntar
se estás onde penso que existo.
Nesse centro sísmico do mundo
num espaço de tempo fechado
eternamente fugaz, onde se pode mergulhar
ou bater asas e levantar voo,
O murmúrio do silêncio da linha telefónica
adensa-se, confunde-se com o vento
a voz e a vénia dos ciprestes
que guardam as alamedas da cidade.
O que há do outro lado dessa linha?
6 de maio de 2026
dA coerÊncia de um poeMa
(assumindo que o poema sou eu, real, ideológico, transparente)
Com a mão direita escrevo de forma ardente
melancólica
silenciosa
Odes à lua, à demência do coração
No recesso de cada estação
tento em vão
substituir o sangue pelo mel
acalmar arritmias
Com a tinta dourada de um poema
Disfarçar a idade com que escrevo
Dar sentido à raiz dos dias
e à espessura das coisas esquecidas
iluminar os poros da pele
com a luz que se derrama de um sorriso.
Com um dedo da mão direita escrevo de novo
de forma ardente
o teu nome na poeira de uma janela
batida pelo vento.
23 de abril de 2026
Poema 52
Adultos, crianças
com fervor humano
21 de março de 2026
Poema branco
Há um poema, um olhar
um adormecimento sereno
um futuro a aguardar
um estremecimento perene
Um amor sem falhas
Versos em branco
por completar
com palavras por rimar
Um poema sem fagulhas
infinitamente à deriva no mar
Um poema em aberto.
5 de março de 2026
Desditas
um grito apertado num rincão escondido
Versos que nascem, erguem-se a pique
e de seguida chovem em pranto
A vida de rimas me salpique
o silêncio apócrifo do destino
A embriaguez de simplesmente existir
numa injustiça sem tino
26 de fevereiro de 2026
Os dias
Hoje, sem grande convicção, apetecia-me,
uma dose abreviada de superficialidade
Rudimentos de navegação aérea
para bater asas e seguir cartografias nietzscheanas
manter a ordem kantiana das coisas categóricas
ordenar o show da vida numa icónica desarrumação
Plagiar silêncios alheios
virar Roma ao contrário até ser verdade
Dobrar os dias até se tornarem côncavos
e mentirem melhor que a lua.
Uma coisa. Qualquer coisa.
19 de fevereiro de 2026
Kairos
Em passo lento observo
os Pais Nossos desta terra
debruçados à janela
aspirando o ar
de poemas a latejar
tateando a fugidia alegria
da claridade do dia
a obstinada existência da vida.
Fixo naqueles que estão no céu,
o olhar do sol que se põe
como uma chama que se extingue
sobre a água do estuário
enquanto deambulo incréu
de sílaba em sílaba
de cinza em cinza
pelo envelhecer dos séculos
E assim ergo
o templo de um tempo trémulo,
ambíguo, ausente
que não é o meu.
18 de fevereiro de 2026
Entardecer
Procurei-te nas estrelas
Pedi-te às montanhas
Mas só a solidão
e a paz breve
da certeza do mundo ser
um engano de deus
Sei o que é não voltar
ao nascer do sol
O sol pode cair
reerguer-se
Mas para nós, quando a luz se extingue,
Cabe-nos dormir uma noite infinita.
9 de fevereiro de 2026
Vida
Queimamos o amor
arquivamos o desamor
centrifugamos o coração
sangramos as veias
sacudimos as teias
acenamos com a mão.
Sorrimos.
Entregamo-nos às constelações.
6 de fevereiro de 2026
Dias longos
Dias longos
de momentos que percorro
e perco na vertigem de cada instante
Dias longos
longe de mim próprio
na amálgama do tempo distante
O silêncio do eco constante da partida
o mar que pressinto por detrás de cada poema
o silêncio sinónimo da vida.


