8 de maio de 2026

O outro lado

Mesmo antes da cortina de água
que a noite fará desabar
do assobiar do vento nas copas das árvores
da mudança cromática da paisagem
antes de se fechar a gaveta da semana
Há ainda tempo para estender a mão
pegar no telefone e perguntar
se estás onde penso que existo.

Nesse centro sísmico do mundo
num espaço de tempo fechado
eternamente fugaz, onde se pode mergulhar
Ou bater asas e levantar voo
o murmúrio do silêncio da linha adensa-se
confunde-se com o vento
a voz e a vénia dos ciprestes
que guardam as alamedas da cidade.


O que há do outro lado da linha? 

As coisas da vida: os ventos do Carlos

 


[Carlos Brito, Coisas da Vida]

6 de maio de 2026

dA coerÊncia de um poeMa

 (assumindo que o poema sou eu, real, ideológico, transparente)

Com a mão direita escrevo de forma ardente
melancólica
silenciosa
Odes à lua, à demência do coração
No recesso de cada estação
tento em vão
substituir o sangue pelo mel
acalmar arritmias

Com a tinta dourada de um poema
Disfarçar a idade com que escrevo
Dar sentido à raiz dos dias
e à espessura das coisas esquecidas
iluminar os poros da pele
com a luz que se derrama de um sorriso.

Com um dedo da mão direita escrevo de novo
de forma ardente
o teu nome na poeira de uma janela
batida pelo vento.