29 de maio de 2026

Solilóquio emulando um desencontro entre Roberto Bolaño e Jorge Palma a uma terça-feira de manhã em Santa Apolónia

Sentado na gare observo os dias a arrotar de pessoas que não se encontram,
em particular dois exilados de ventre inchado alojados em hotéis baratos de Santa Apolónia,
ambos de corações danificados, carregando malas cheias de rabiscos velhos
mapas que não levam, em todo o caso, a rigorosamente lugar algum.

Há neles uma geometria do desencontro, um cálculo preciso
inscrito como traços no asfalto molhado do padrão de uma maldição
testemunhada presencialmente por cada gerente da noite
— gerentes do lado errado da noite - de cada bar cujas portas franquearam

É uma manhã de terça-feira que cheira a combustível e a promessas quebradas,
como se tivéssemos acordado à procura do reflexo de alguém que já partiu,
ou que talvez nunca tenha existido, a não ser como vulto, num bar de beira de estrada
onde a jukebox toca uma canção que sangra silêncio.

O tempo que passa não é um rio, mas uma sequência de corredores escuros,
e nós somos os detetives selvagens que perderam a pista da própria sombra.
Passamos por nós mesmos na esquina das avenidas fingindo que não nos reconhecemos,
E que cada desencontro é, na verdade, uma forma de libertação.

Mas a verdade, essa puta cruel, sussurra ao ouvido dos poetas vencidos:
os dias são apenas o ruído que resta depois de todos os amigos que se foram,
depois que a última biblioteca foi saqueada pelo pó,
e o único rastro na poeira do tempo é a memória de uma carta que nunca escrevemos.

E assim, entre um cigarro acendido noutro, enquanto a cidade se desintegra em néon,
continuamos à espera. Não por alguém, nem por algo,
apenas pelo momento em que o desencontro
finalmente se transforme na única pátria que nos resta.

8 de maio de 2026

O outro lado

Mesmo antes da cortina de água
que a noite fará desabar
do assobiar do vento nas copas das árvores
da mudança cromática da paisagem
antes de se fechar a gaveta da semana
Há ainda tempo para estender a mão
pegar no telefone e perguntar
se estás onde penso que existo.

Nesse centro sísmico do mundo
num espaço de tempo fechado
eternamente fugaz, onde se pode mergulhar
ou bater asas e levantar voo,
O murmúrio do silêncio da linha telefónica
adensa-se, confunde-se com o vento
a voz e a vénia dos ciprestes
que guardam as alamedas da cidade.

O que há do outro lado dessa linha? 

As coisas da vida: os ventos do Carlos

 


[Carlos Brito, Coisas da Vida]

6 de maio de 2026

dA coerÊncia de um poeMa

 (assumindo que o poema sou eu, real, ideológico, transparente)

Com a mão direita escrevo de forma ardente
melancólica
silenciosa
Odes à lua, à demência do coração
No recesso de cada estação
tento em vão
substituir o sangue pelo mel
acalmar arritmias

Com a tinta dourada de um poema
Disfarçar a idade com que escrevo
Dar sentido à raiz dos dias
e à espessura das coisas esquecidas
iluminar os poros da pele
com a luz que se derrama de um sorriso.

Com um dedo da mão direita escrevo de novo
de forma ardente
o teu nome na poeira de uma janela
batida pelo vento.