Um pouco à noite, naquilo a que deus chamou trevas
depois do dia se extinguir e os jardins prepararem
as vestes de corres garridas do dia seguinte,
e as flores a alquimia do encantamento dos insetos;
à noite pontuamos a memória, medimos a alegria
a tristeza, a transparência dos dias: a humanidade do mundo.
À noite tudo se torna claro, como a claridade
de um turbilhão de luz que forma um buraco negro
de substância suspensa, matéria orgânica giratória
formando um rosto que se ilumina e apaga devagarosamente,
uma boca que se abre e fecha crepitando palavras
que fluxam e refluxam espasmodicamente.
E rosas. Porque não rosas à noite? E música
com notas tão previsíveis como os elementos meteorológicos
ou as sombras ao cair do dia, ou ainda
a correspondência que nos cai pelo receptáculo da porta
à passagem do carteiro cujo nome desconhecemos.
Divagações sem nexo como a antimatéria das páginas
de poemas trémulos cheios de linhas e linhas despidas
que entoam a morte, o amor, os elementos, os filhos, as mães
a força e a falta dela, a sofreguidão, a urgência, a amargura e a doçura.
E tudo o mais. Porque à noite tudo se faz e desfaz. A água. O sal.
Todos os capítulos dos livros. O assombro e o desassombro.
30 de junho de 2026
Noite
10 de junho de 2026
Heaven can't wait
Se houvesse un céu, isto seria muito provavelmente o que lá estaria a tocar quando lá chegassemos:
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