16 de maio de 2008

Vincent Van Gogh, 1888,
Starry Night over the Rhone

Falemos pois
agora baixinho
Porque a noite se apagou
.
Ainda neste verso pensava Xavier quando no dia seguinte se sentou no banco almofadado colocado no centro da imensa sala branca em cuja parede nascente estava pendurado o original do mestre holandês. Ali permaneceu cerca de vinte minutos, distraindo-se ocasionalmente a observar quem entrava na sala, detendo o olhar num ou noutro pormenor, apurando o ouvido para um ou outro comentário mais conhecedor, mas procurando, sobretudo, apesar do muito que tinha lido acerca da pintura, absorver as explicações dos guias que na altura conduziam, empunhando uma pequena bandeira em riste, pequenas hordas de turistas estrangeiros. Conferiu distraidamente as anotações que tirara e preparou-se para se levantar. Não viu por isso de imediato, uma mulher de vestido branco que entrou no perímetro da sala número trinta e cinco do Musée d' Orsay com passo elegante, seguro mas discreto. Uma mulher que não passou despercebida a quem se encontrava na sala e, como Xavier viria a confirmar mais tarde, não passava despercebida em lugar algum.
[...]
Clara era, na verdade, uma pessoa fascinante, embora um pouco altiva e cruel na forma como se manifestava. Era dona de um sorriso muito particular, cativante, mas simultaneamente irónico e afectuoso, embora suficientemente plastificado para manter à distância quem não lhe agradasse. Todos os homens se apressavam a abrir-lhe as portas por onde passava, e poucos hesitariam em segui-la. Tinha consciência disso e até determinada altura isso dava-lhe especial prazer. Era, em suma, uma sedutora nata que sabia agradar com o seu gesto estudado, os silêncios ou um comentário inteligente. Gostava de não passar despercebida, na verdade esforçava-se em cada pormenor por isso. Conhecia toda a gente, tratava os chefs dos restaurantes por tu ou pelo primeiro nome.
[...]
Almoçaram nessa mesma tarde, com uma toalha estendida sobre a erva fresca, à sombra de um plátano cuja folhagem começava a cair. A tarde voou enquanto se ouviam os rebanhos de cabras a passar ao longe e a água fresca de um riacho a escorrer entre as pedras um pouco abaixo de si. Ao anoitecer levantaram-se, despediram-se a custo e trocaram números de telefone. Ela partia para uma conferência em Valência, ele regressava a Alcoutim, onde havia restaurado uma casa velha para onde se mudara de armas e bagagens a fim de terminar um romance que começara a escrever há demasiado tempo.

3 comentários:

Anónimo disse...

A cantar é melhor: (todos juntos)

"Now I understand what you tried to say to me,
how you suffered for your sanity,
how you tried to set them free,
they would not listen, they did not know how,
perhaps they'll listen now"

:)
(Don McLean)
Há quase 2 anos atrás estava sentada num certo local com algumas pessoas um tanto ou quanto enfadonhas e como forma de protesto "à la Lucy" cantei esta música do princípio ao fim (foi a música que me veio à cabeça no momento).
Claro que me mandaram calar.
Claro que não me calei.

Foi divertido.

Anónimo disse...

Durante anos silenciei Van Gogh por paredes, sorvi o filme e enquanto médica idealizei a figura psiquiátrica por detrás do homem. Psicanalizei-o e esgotei-o de sensações quando o olhava. Afastei-me para melhor o entender. Depois preenchi o seu lugar po Bosh, até que estaquei em Frida Khalo.
Tudo foi simbiose e sofreguidão. Frida pintara como eu vivia, e a sua pintura tinha tantos ossos e tantas feridas como a minha alma. Hiper-realista e nua, agredia para se proteger. A cor e os motivos eram tão sul-americanos como eu me sinto cigana. Hoje mantenho a Frida como a minha pintora preferida, e tal como Diego Rivera, preciso às vezes de abrandar na dose de intensidade, e entrar nessa sala para deambular por Van Gogh. O coração bate ainda mais devagar, e gosto de vê-lo misturado mas único, na pequenna sala da Gare D'Orsay em Paris. Vi-o sempre sòzinha. Terei que voltar. T

Lucy disse...

Ai E... assim arrasas comigo. Olha que eu sou muito sensível (uma mistura indefinida de leão com caranguejo).

De vez em quando arranjas umas personagens muito parecidas comigo. A outra dos urban gardens também tinha tudo a ver comigo. É claro que em relação a esta Clara podes pôr de parte tudo o que é belo - sou velha, feia e gorda (para não mencionar o cansada). Mas relativamente a todos aqueles defeitos de personalidade é igualzinha a mim.

E sabe tão bem ler. Pode ser que um dia seja mesmo eu.

Onde anda o Xavier da minha vida?

Tive uma prof. de filosofia de apelido xavier. Não gostava de mim. E eu não gostava dela. Enquanto todos os outros profs me consideravam brilhante, esta xavier menosprezava-me.