18 de julho de 2008
14 de julho de 2008
Lisbon comes alive

11 de julho de 2008
Prefácio de "Sul"

Eagles may soar
but weasels don't get sucked into jet engines
(John Benfield)
Anos volvidos depois da minha fuga, eis-me em Berlim Leste, pisando os passos de Bertolt Brecht. Ontem estive no 3 Groschen Bar, mas já nada parece ser o que era. O próprio Brecht é agora uma sombra do que foi. Há dias bebi uma cerveja com ele - a última - e a seguir passeámos no parque. Não se confessa arrependido de ter regressado a Berlim, mas é um homem desencantado com a vida. Não falo de uma decadência própria de quem tem toda a esperança de uma boa vida e de quem acha que legitimamente pode esperar ou fazer tudo, até perder tempo; falo antes do desencanto mortal que faz com que quem contrai semelhante vírus esteja morto muito antes do coração parar de pulsar. Foi este Brecht que recentemente conheci, apesar da sagacidade que emana do olhar que derrama por trás das armações que suportam as suas lentes grossas. É ainda uma pessoa impressionante, mas está morto.
Num apartamento com vista para a Mühlenstraße, conto as tentativas semanais que os desesperados fazem para atravessar para ocidente. Procuro reunir as condições indispensáveis para eu próprio atravessar a fronteira e me juntar à alma que se separou de mim há anos, quando, ainda jovem, parti de Bratislava. Estou há demasiado tempo longe da alma que me viu crescer. Dela e de Hannah, a minha fiel companheira, a quem dedicarei este livro. Porque me compreende, aceitou e aceita como sou, este ser incompleto, imperfeito e difícil em quem me tornei. Ela me mostrou o caminho do amor e deu-me a maior prova de carinho possível.
O meu primeiro livro nunca se vendeu. Não passo de um escritor medíocre, ou se calhar nem sequer sou um escritor. Intencionalmente, escrevi sempre em alemão, mas talvez não saiba alemão suficiente para a minha escrita ser atractiva. Ou talvez apenas não escreva o que as pessoas querem ler. Ler e compreender Nietzsche não basta. Admito o meu erro - valha-me isso - : reconheço o meu pessimismo. Nos tempos actuais as pessoas querem ouvir falar de coisas alegres, querem finais felizes. E comédias ligeiras. Brecht falou-me disso num dos raros momentos em que o ouvi rir, enquanto ajeitava a gola do casaco para se proteger do orvalho do cair da tarde. E tal não é nada de diferente do que desejo. A minha alma disante é feliz. Vagueia livre, pelas planícies sul-americanas. Nunca pensei dizer isto, mas sou feliz. Mais do que alguma vez fui.
Neste apartamento com vista para a Mühlenstraße, conto as tentativas semanais que os desesperados fazem para passar para ocidente. Sei que a Stasi me ignora, apesar do que por vezes escrevo, mas vivo apavorado com receio de ser encarcerado. Sei que sou apenas um pobre escritor que ninguém lê. E este livro - agora perto de estar terminado - é o destino que o meu espírito procura incansavelmente. Preciso, pois de o alcançar. O Sul é a minha liberdade para lá de Mühlenstraße, donde o título que escolhi antes de começar a escrevê-lo.
Berlim Ocidental, 20 de Agosto de 1961
PS: Brecht morreu em 1956. Este texto é dessa altura e mede o tempo que demorei a conseguir passar para o Ocidente e a encontrar um editor. Curiosamente, só o consegui fazer há dias, depois de terem construído um muro que me criou uma insuportável sensação de claustrofobia e me fez tomar a decisão de tentar a minha sorte. Não consegui assistir ao funeral de Brecht. Seria fácil mudar o que escrevi sobre si, mas hei por bem não o fazer. Espero poder visitar a sua campa um destes dias e depositar-lhe lírios.
Para Hannah, com todo o meu amor, onde quer que esteja.
banda sonora de Requiem for a Dream
Prefácio de "Noites do Estreito"
Por sobre o Eu que eu sou
nunca houve uma ponte edificada
apenas torres de marfim
demasiado altas.
Passeio-me nesta cidade cinzenta e chuvosa cuja atmosfera já de si irrespirável se agravou com a revolução do início do ano. A minha infância, adormecida nas margens do Danúbio, voou para ocidente, para além do lado austríaco na margem próxima que apenas conheço pelos relatos entusiasmados do avô. O meu corpo está preso deste lado de uma cortina de neblina que paira sobre o rio como uma muralha férrea, que ora se dissipa, ora permanece a pairar, o que sucede mesmo quando a Primavera cai sobre Bratislava. Ao cimo da colina por vezes a simples visão do Castelo esmaga-me, mesmo que muitos o considerem o orgulho da cidade. As sinfonias de Mozart e Haydn que enchem as ruas, que tantas vezes eu próprio dedilhei e tanto me alegravam, soam-me por vezes como marchas fúnebres. Deixei este ano de tocar violino como a minha mãe tanto queria. Apenas o chilrear dos pássaros me alegra, quando a relva cresce nos curtos momentos em que o Verão passa por estas paragens. O meu espírito voa. E só isso me mantém são. Há um ano, um viajante deu-me um livro seu de relatos de uma viagem pelo continente sul-americano. Tinha profusas ilustrações feitas à mão por si, que me libertaram o espírito muito para além do que imaginara possível. Por agora é-me impossível sair de Bratislava, por isso parto apenas em espírito, para uma longa viagem de libertação. Para um país imaginário. E por agora apenas nas páginas deste livro. Bratislava recupera já dos escombros da guerra, mas o destroço que eu sou não me permite ficar. Por isso parto para longe, desde esta primeira página, enquanto posso.
(ou sonata para um homem bom)
excerto de Das Leber der Anderen (A Vida dos Outros)
9 de julho de 2008
- Cá estão Xavier, não foi fácil, mas cá estão! - exibiu o alfarrabista com um sorriso generoso.
- Nem sei como te agradecer, Louis... - retribuiu Xavier.
- Tomei a liberdade de lhes passar uma vista de olhos e não são grande peça literária. Quer dizer, prendem a atenção, mas não são nada de magnífico. Em todo o caso, o segundo é melhor que o primeiro.
- E o terceiro? - perguntou Xavier ansioso.
- Vou precisar de mais tempo, meu caro. Há um depósitos de livros perto de Montigny que fica com as sobras das editoras falidas. O responsável é um velho conhecido meu e ele está a pesquisar os títulos, mas aquilo é um mundo e portanto demora o seu tempo, dado que os exemplares mais antigos não estão no registo informático.
Cuidadosamente, Xavier puxou pelo cordel que encerrava o embrulho e abriu-o cuidadosamente. Dentro, iluminados pela luz baixa, dois volumes em capa discreta, o primeiro em tons de violeta e o segundo em tons esverdeados. Em ambos, as páginas amarelecidades e os tipos empregues no texto denunciavam a idade. O primeiro tinha por título "Noites do Estreito" e o segundo "Sul". Ambos de Eric Sevlak. Quando encontrara Clara, nessa tarde, ela lia o primeiro, enquanto Xavier tinha o segundo, mas tratavam-se de edições mais recentes. Louis acabara de lhe obter as primeiras edições de cada um deles, com os respectivos prefácios redigidos pelo próprio escritor.
8 de julho de 2008
Montreux Jazz Festival
Nina Simone, "Feelings", Montreux Jazz Festival 1976
Palavras, as mesmas
caindo como um reposteiro velho
(des)feitas de pó
eternamente em suspensão
que olhamos sem reconhecer.
Nesta genial interpretação de Feelings (um original de Albert Morris), Nina Simone supera-se. Num determinado trecho da composição, a intensidade vocal é imensa e sente-se a dor de quem canta, que se estende a quem foi levado a escrever uma letra assim, como a própria Nina sublinha no início da perfomance. Essa intensidade é em seguida esmagada por um solo de piano que apenas acentua o que antecede, previamente acompanhado por uma subtil, mas oportuna percussão. No final, a voz acaba por prevalecer, mas sempre coberta pelo piano, sentindo-se a violência dos sentimentos num momento de quase-grito-em-surdina, calado mesmo ao rasgar de um coração trespassado que nos atravessa enquanto ouvintes e espectadores. A ironia está em que, roubando o pesadelo retratado por Morris no original, Nina transforma-o numa interpretação de sonho.
4 de julho de 2008
30 de junho de 2008
29 de junho de 2008
Blogs favoritos: Winx do sul
24 de junho de 2008
...
- Creio que o pai de Sevlak foi aluno de Sigmund Freud - disse Clara, enquanto poisava o copo na beira da mesa, empurrando o cabelo longo para trás num gesto estudado, que nela parecia natural - e devem ter vivido durante algum tempo em Viena. Sevlak nasceu em Bratislava e apenas veio para o ocidente nos anos sessenta ou setenta. Isso explica porque os seus personagens são por vezes sombrios, densos e sisudos.
- Como sabe que são sisudos? - perguntou Xavier, recostando-se na cadeira, como se esperasse uma revelação grandiosa.
- Não sei se são, imagino-os apenas assim. E sabe uma coisa? É algo que me incomoda, mas não consigo imaginar os personagens de Sevlak sem serem sisudos, é algo que lhe colei na pele e, acho, é algo com que teria de viver para sempre, se ainda fosse vivo.
- Bem, acho que um escritor será sempre vivo enquanto os seus livros se lerem - retorquiu Xavier - pelo menos deveria ser assim.
- Talvez tenha razão - respondeu Clara - mas é algo que é indiferente. Para mim, Sevlak será sempre um autor sisudo, esteja vivo ou morto.
- E como classificaria os personagens de Kafka? Quer dizer, sem dúvida que são bastante mais sombrios...?
Clara deteve-se a pensar um instante e respondeu com um seco encolher de ombros: horríveis. Xavier não insistiu e mudou de assunto no momento em que Clara chamou a atenção do empregado. Apenas falariam de Kafka numa outra ocasião.
Un fin violin
Giuseppe Tartini, Sonata I de Il Trillo del Diavolo
(interpretação de Oscar Shumsky)
NOTA: Nada do que se refere acima tem qualquer rigor científico, tratando-se tão somente de uma leitura romanceada de diversos artigos que se fez ao longo do tempo, depois de termos tido a sorte de tropeçar num concerto inesquecível de Anne-Sophie Mutter.
23 de junho de 2008
Deixamos palavras brilhando
para as reconhecermos em cada esquina
e depois escorregarmos nelas
como se untadas em gordura
20 de junho de 2008
Le papillon
Survolant la table ou nous prennons un café
assis sur cette petite esplanade fleurie de Gruyère
Je vois avec clairvoyance
que se sont toujours tes mains sereines
que supportent mon visage.
.
J’ouvre mon regard
et je suis [ ou je te suis simplement]
ébloui
par la lumière incandescente de tes yeux
Inlassablement attiré para la clarté simple
d' un esprit libre et dématérialisé
où aucune griffe ou artifice, vrai ou sophistiqué
aura raison ou besoin d’être.
L' Estate
Sotto dura staggion dal sole accesa
Langue l’huom, langue ‘l gregge, ed arde il Pino;
Scioglie il cucco la Voce, e tosto intesa
Canta la Tortorella e’l Gardelino.
Zeffiro dolce spira, ma contesa
Muove Borea improviso al suo vicino;
E piange il Pastorel, perchè sospesa
Teme fiere borasca, e’l suo destino;
Toglie alle membre lasse il suo riposo
Il timore de’ Lampi, e tuoni fieri
E de mosche, e mosconi il stuol furioso!
Ah che pur troppo i suo timor son veri
Tuona il fulmina il Ciel e grandinoso
Tronca il capo alle spiche e a’ grani alteri.
Antonio Vivaldi, O Verão
17 de junho de 2008
O (im)possível
no outro desceu
[viu descê-la quem teve paciência de esperá-lo]
e por fim ao raiar da aurora
abriram-se-me estes braços.
O pássaro branco voou
em círculos por sobre o campanário
e as pombas imitaram-no
em silêncio
enquanto se ouvia no parque
o riso claro das crianças.
Acredito.
Porque ao teu lado tudo é possivel.
Sudoeste
ensinou-me muito
sobre os recônditos segredos do teu corpo
e as contradições da tua alma.
O amor não é contudo o prazer
nem a perfeição de sentimentos
e a cegueira de uma separação
apenas existe depois do fim
e das sensações espúrias e imaturas
da solidão ou do tédio.
Esta manhã sopra um sudoeste fresco
que se esgueira por entre as frestas das janelas
do madeirame envelhecido
com assobios de liberdade
é por isso inútil o teu refúgio debaixo dos lençóis:
o que procuras,
la liberté,
comme tu bien le sais,
c' est moi.
16 de junho de 2008
3 de junho de 2008
(sans titre)
Tes cheveux, ton corps
Tous participent a la formation imaginaire de mes courants océaniques
Et l’amour?
L'amour, aussi
je peux le jurer
en me rappelant de ton visage surplombant chaque tempête.
Tu me manques péniblement quand je tombe par terre en dessous des arbres
Prés de l’eau
En regardant le ciel.
.
Maintenant je pars.



