18 de outubro de 2009

'A flor máis grande do mundo'

A Inês enviou-me uma mensagem muito bonita. Fui lê-la e tive uma surpresa, que partilho convosco. Espero que gostem, como eu gostei. Obrigado filha.


6 de outubro de 2009

"Tout est lié. Tout est vivant. Tout est interdependant". Com esta citação começa "Le viol de l'imaginaire", 2002, livro escrito por Aminata Traoré, antiga Ministra da Cultura do Mali, à margem do Forum Social de Porto Alegre, realizado em 2001, aquele acerca do qual Boaventura de Sousa Santos afirmou ser o princípio do futuro.


C’est tel un tambour à l’aube des temps nouveaux que l’appel de Porto Alegre m’est parvenu. Mon cour de femme africaine, qui sait pourquoi il pleure, s’est alors mis à chanter l’esperance en exprimant mon rêve d’alternative à haute voix. Nous étions venus des milliers dans la capitale du Rio Grande do Sul (Bresil), munis de nos histoires de vie individuelles et collectives que nous voulions désormais différentes. Nous nous côtoyons - Rouges, Noirs, Blancs, Jaunes - en peuples arc-en-ciel - et solidaires dans cette quête commune d’un monde meilleur, conscients, fiers et respectueux de nos différences qui font le sel de la terre. Je me sentais de mon peuple, de mon continent et de ce monde de "quêteurs" de liens et de sens à la vie. Et je me sentais bien.
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No livro, Amina denuncia a voracidade do liberalismo e do racismo dos tempos coloniais e ao mesmo tempo o neo-liberalismo e o neo-racismo pós-coloniais, ideias que acentua numa obra escrita en 2004, "Lettres d'une Africaine à la France". Os seus discursos indiciam um combate pela dignidade, pela igualdade e pelo transnacionalismo africano cuja unidade e dignidade procura defender contra a ideia da piedade por África, afinal e em última análise o factor primordial em que assenta o mais enraizado racismo europeu, fonte do falhanço do continente, que é apenas igualado pelas políticas desastrosas do FMI, do Banco Mundial e da corrupção de alguns governantes africanos. Donde, para Amina, o falhanço actual de África assenta na ruína de três ideias, a saber: a económica, a política e a falha civilizacional, cuja correcção constitui a chave da resolução do problema e do princípio do futuro. À data, Amina preparava o Forum Social que decorreu em Bamako, Mali, em 2006.
Concorde-se ou não, as ideias de Amina merecem ser debatidas, repensadas e articuladas num contexto de relacionamento entre continentes, mas sobretudo entre gentes que são transcontinentais, sobretudo porque encontram reflexo numa forma de pensar que, no que nos interessa, pode ser africana, sul-americana ou asiática. Mas sobretudo, porque constitui uma maioria entre as minorias, o sentir africano não se cinge hoje aos africanos de e em África, mas aos muitos milhões que povoam a Europa do presente e que se sentem traídos no passado, alimentando um profundo ódio que abraça e alcança o futuro, hipotecando-o enquanto semeia as bases de uma discórdia que a breve trecho se não resolve. A falta de informação gera a incompreensão, a crise de identidades e o conflito, que apenas acentua a ruptura e a violência. No limite, o maior flagelo, a flor do racismo, desabrocha nestes confrontos ideológicos onde a intolerância se revela total e onde a herança cultural, a religião e raça procuram forjar heranças que mais não são que traços defensivos que assentam em identidades que, como dizia Amin Maalouf, se revelam, afinal, assassinas.


Diego Stocco Sound Design Video Reel 2008 from Diego Stocco on Vimeo.

Já aqui se falou do som das cores ou da cor do som. E nessa medida tudo à nossa volta seria som, ou antes tudo seria cor. É absolutamente irrelevante, na medida em que os dois universos se confundem e catalogar uma das duas realidades tornar-se-ia impossível, porventura, no limite, um absurdo. Mas será assim mesmo? E se, as próprias palavras, adquirindo um ritmo e sons próprios, também tivessem cores? Ou se as cores tivessem palavras? Múltiplas palavras? E um poema ou um texto pudesse ter uma conotação pictórica? Afinal, não raras vezes dizemos que um livro é cinzento, ou que determinado autor é pesado, como se o peso em si pudesse definir a densidade das palavras.
E se agora se imaginasse que tudo à nossa volta, em vez de cor e som, fosse... música? Ou seja, como se o som das coisas, a reverberação de cada corpo, pudesse ter múltiplas notas musicais com as quais fosse possível compor paletes de sons, que por sua vez pudessem permitir a criação de composições, sinfonias, concertos? Imagine-se uma composição composta com o som de passos num soalho, ou de areia do mar a cair sobre diversas superfícies, ou uma árvore de um jardim, ou até um instrumento musical utilizado de forma completamente diversa daquela para a qual foi criado. Um exemplo descrito na primeira pessoa:
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Imagine-se a infinitude de possibilidades que o sampling dos sons do mundo poderia ter se, adaptado numa realidade musical que combinada com o código das cores e das luzes, pudesse criar uma dimensão nova e paralela com a nossa. Delírio puro, pensar-se-ia. E no entanto, Diego Stocco - um auto-intitulado sound designer - vem fazendo isso há alguns anos a esta parte. Goste-se ou não, o resultado tem um impacto a que não se consegue ficar indiferente.
O vídeo acima é uma mistura de vários vídeos de Stocco.

28 de setembro de 2009

Cai o pano

(e depois do pano cair)
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Tu não entendeste
a importância de um corpo metamorfoseado
em silêncio a cada grito calado
no reflexo dos amanheceres calcários da cidade

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Tu não entendeste
a relevância de cada percurso nómada
ou o contorno longínquo dos sopés
irrigados de orvalho e geada em deriva lenta

.
Tu desdenhaste
os meus amanheceres imperfeitos
à beira de um rio imaginário
sem atenderes ao movimento dos meus lábios
.
Tu
somente as esquinas maquilhadas

das avenidas do mundo

25 de setembro de 2009

XI Encontro de Música Antiga de Loulé

A XI edição começa hoje e prolonga-se até 25 de Outubro. Imperdíveis deverão ser os espectáculos desta noite, em Quarteira, mas igualmente o espectáculo de homenagem a Handel de 4 de Outubro, na Edifício Duarte Pacheco, em Loulé e o Concert Brisé de dia 16, na Igreja de Querença.
olhar o Mar
sem pensar
é tudo o que sei fazer
sem acreditar em nada
sem tocar na água
antes Arder

[aquáticas palavras]
em lume brando
a 25 de Setembro

23 de setembro de 2009

Às voltas na blogosfera


felicita sala é romana e estudou filosofia. ouve nick cave, tom waits, seu jorge, ojos de brujo, aquaragia drom, moni ovadia, nino meloni, chavela vargas, cocorosie, harry belafonte, midlake, j. tillman, beirut, massimo giangrande, la rue kétanou, camarón de la Isla, portishead, architecture in helsinki, the dirty three, roots reggae, beck, björk, françoiz breut e klezmer. não se pode portanto falar de mau gosto musical. e para além do mais, pinta. muito bem. vale, pois, a pena passar demoradamente pelo babouche rouge.

17 de setembro de 2009


A vida escoando-se em torrente
Ruin
uma dispersão em que medito
is when man-made
sem nostalgia
becomes part of nature

Lazila pertencia à classe de mulheres que trabalhava na aldeia. Nunca tinha tido filhos e um acidente na infância privara-a dessa possibilidade, pelo que nunca um homem a tomara. O pai, primeiro, e a mãe a seguir, morreram de desgosto e cada uma das irmãs foi partindo, melhor dizendo levadas, pelos estrangeiros de passagem pela aldeia, que a troco de umas moedas descansavam a consciência do soba. Lazila não. Os seus olhos, espessos como ameixas, inspiravam receio nos homens, ao ponto de um deles se ter oferecido para a matar. O soba pensou, mas pareceu-lhe que dispender umas moedas para isso seria um desperdício. E para além do mais, quem iria buscar água ao rio, ou levar o gado a beber na secura do estio?
O ancião, acocorado à porta da palhota, deixou cair um punhado de grãos na poeira do solo e ficou a olhar para as pequenas bolas espalhadas. O conhecimento exaustivo ditado por centenas de arremessos permitiu-lhe afirmar com segurança que não choveria nessa semana. Nem talvez nesse mês e dentro de dias o rio secaria, trazendo consigo os gafanhotos que devorariam a colheita e picariam os animais, espantando-os para longe.
Chamou Izam, o filho do soba, entregou-lhe uma vara e mandou-o procurar água longe. Que levasse Lazila consigo. Ao cair do dia ela regressou, sozinha, à aldeia, trazendo uma cabaça de água equilibrada na cabeça, um fino fio de sangue escorrendo pelo canto do lábio. O soba arremessou novamente os grãos e entoou um canto fúnebre quando a fogueira foi avivada. A vida prosseguiu em seguida. O lábio de Lazila cicatrizou e a seca nunca chegou.

Road to 40

14 de setembro de 2009


Soa a deja vu e no entanto é um filme novo numa sequela que demorou mais de vinte anos a produzir. Um elenco de luxo foi mobilizado, recheado de actores e figurantes do lado de cá e de lá do Atlântico, ao nível das mais ambiciosas produções da Globo e da RTP. O realizador anterior mudou-se para o Cazaquistão com a sua santa (não sem antes passar por Londres, entenda-se) e foi substituído. Pelo caminho foi reunido o orçamento de uma superprodução sem equivalência anterior. Estreia em 2010, mas pode haver já uma ante-estreia em 2009. A não perder, num estádio perto de si.

6 de setembro de 2009

... o tempo e o vento
correndo em paralelo
entre as dunas e os canaviais
Assim fui aprendendo
que a tua boca
[a] nada sabe
como um espaço sem tempo
como um tempo sem lugar.
...
Desistiu. Alícia Aguado não atendera apesar da insistência de Consuelo Jímenez. Refugiou-se do calor e dos pensamentos que a perseguiam numa bodega onde o vinho tinto era correctamente servido muito abaixo da temperatura ambiente de Sevilha. Pediu um tinto de veraño, depositando no conteúdo da taça refrigerada a confiança de bons conselhos na organização dos seus pensamentos.

14 de agosto de 2009

Luc Arbogast

Luc Arbogast joue une musique inspirée de la France médiévale et surtout de la tradition paysanne où se chevauche mélancolie et spiritualité. Ce musicien autodidacte manie le clair-obscur avec ferveur et beaucoup de sincérité. Il s'inspire parfois de cantiguas de Santa Maria et de lieder de Walter von der Vogelweide, de Hildegard von Bingen, ou de Guillaume de Machault.On dit qu'il a également le secret de nombreux morceaux chantés traditionnels réarrangés par ses soins ou composés par lui, tel un branle double mélancolique chanté en français, qui aborde la mélancolie de l'enfance perdue, par un texte plus contemporain ainsi que des chants inspirés de scénes du quotidien de la vie du moyen-âge au début du xxeme siècle: Chants de quète, amour courtois, deuil, mariages...

20 de julho de 2009

Na maré vasa
uma mariposa volteia
e logo desaparece
Farewell my butterfly.
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Treze segundos depois as portas abriram-se no piso térreo. Consuelo adivinhou o sorriso do desconhecido, agradeceu a amabilidade dq primazia do passo e precipitou-se para o exterior, mal conseguindo digerir o evidente desejo sedutor do estranho, a camisa escura impecavelmente engomada e os cabelos brancos que com esta contrastavam, crendo que o seu perfume aprisionaria aquela bonita mulher num feitiço. Consuelo reconheceu nesse instante cada homem que a tentara seduzir ao longo de uma vida. O sorriso, o relógio, os sapatos de marca, os gestos. Apoiou-se numa parede branca para recuperar o fôlego que lhe faltava, fosse pelo estranho encontro, fosse pelo calor sufocante da cidade. O desconhecido sonegara-lhe as forças, criara em si um sentimento que agora se apercebia que lhe fora imposto por Richard. Richard que a tratava tão bem, mas que ao mesmo tempo a suficava como agora o fazia o ar de Sevilha. Pensou nas crianças, de férias com a irmã em Puerto de Santa Maria. Esse mês em outros anos sabia-lhe bem, era o tempo de partilha com Javier Falcón. Mas agora não era assim, sentia-se insegura e com saudades dos pequenos. Procurou o telefone na mala e discou o número da irmã. Do outro lado, apenas o operadora lhe respondeu educadamente, sem disfarçar uma voz de sotaque asturiano. Encaminhou-se para a praça de táxis deserta. Ao fim de vinte minutos de espera, sentiu as força a abandonarem-na, sentindo a agonia de uma borboleta sem asas contorcendo-se no estômago apertado. Ligou então para Alícia Aguado, a psicóloga cega, cujo apartamento, com um dos terraços mais floridos da cidade, pouco distava dali.

13 de julho de 2009


Não tenho mais ninguém em quem pensar
Sempre que faço amor:
fico nervosa
não sei
mas esta boca sabe-me a uma boca estranha
Am I crazy?
Penso nos teus lábios [sem os tocar] há uma eternidade
Am I crazy?
Não tenho mais ninguém em quem pensar
Esta língua parece-me acre
Mas é apenas impressão minha
Tenho a certeza

I am not crazy

Os meus seios não mentem
Sonho com o teu pescoço sem par
Estas sombras no alpendre

oscilando soltas ao vento
inquietam-me como fantasmas do passado
dançando sob a luz trémula de uma vela
Am I crazy?

Wagner?
Intermezzo.
Mauvaise chance?
Wrong choice.

Consuelo Jímenez fechou a porta do seu luxuoso apartamento, certificou-se que ficara bem trancada e dirigiu-se para o elevador. Este estava ocupado, pelo que aguardou no patamar. Trinta segundos depois as portas abriram-se em par, permitindo o acesso ao interior, onde um homem bem parecido, mais novo, de roupa desportiva e barba de dois dias, a cumprimentou com um sorriso largo. Hesitou, mas decidiu entrar no espaço exíguo, sem contemplar as feições do desconhecido.