5 de fevereiro de 2010

A teoria do gato flutuante


Chegou esta madrugada, por email, uma das teorias que mais podem pôr em causa os estudos de Isaac Newton. Atenta a importância do que está em causa, não resisto a partilhar (clique na imagem para aumentar).

2 de fevereiro de 2010

Overdose nómada

hoje pintar-te-ia os lábios
da cor da luz
ou do mel
ou antes do lume
que arde na tua ausência

hoje pintar-te-ia o rosto
com a luminosidade do amanhecer
com o gesto leve da asa
de uma ave que se eleva
do ramo da oliveira

hoje repintaria as violetas
que me prendem à terra
e o meu canto nómada calar-se-ia
como o silêncio de um pássaro
no fim da migração

hoje o albatroz
dobraria
definitivamente as suas asas
e interromperia a sua navegação
contemplando o teu rosto delicado
de menina

A perfect day

Pavel Haas

Pavel Haas, estudo para Quarteto de cordas, Theresienstadt, 1943

1 de fevereiro de 2010

Vlastimil Kula


o teu corpo
uma precária liberdade

Poema Al Berto

Tricotar reticências
como quem acende uma fogueira
longe... do mundo
antes da chegada dos sonhos
quando se olha o mar sem se pensar
tricotar reticências...
dormindo

num movimento desordenado
exausto
de corpos desorientados
e mãos estendidas
Um rebanho de gente fascinada
por um místico
monólogo

estou
Al

alucinado
[Al]
pendurado
Acordo em
A[l]-
berto
sobres-
salto

na madrugada

lírios extemporâneos

26 de janeiro de 2010

A padeirinha de Estrasburgo


Edite Estrela foi muito criticada por discursar em castelhano (vá lá, haja boa vontade para aceitar que é castelhano). Mas pessoalmente sou da opinião que não há melhor forma de defender a língua portuguesa que a assassinar a espanhola a golpes de catanada. Consta que Zapatero não prescindiu da tradução simultânea.
Su rostro se alzaba en mi pensamiento:
- Sabes dónde está? - me pregunté.
- Creo que sí - murmuró una voz que apenas reconoci como mi propia voz.

Y entonces segui el camiño hasta el puente viejo
Lo atravesé
Sin mirar atrás
Bajo las estrellas

Y en la noche inmensa
sigo y le digo adíos


[Road to 40]

21 de janeiro de 2010

... e Mark Rothko

(mas hoje não há paciência para escrever sobre o assunto)
porque é noite
e os pássaros recolheram já a casa
esqueçamos o tempo
a eternidade
(nenhuma eternidade aliás)
silêncio
é Janeiro
escondamos os corações
(ponto parágrafo)
desvie-se o olhar
dos lírios murchos em cima da mesa
e o vapor de água
depositado numa superfície vítrea
em fúmeas deambulações
(ponto parágrafo)
silêncio
ouçamos, simplesmente
o trabalho das estações
(ponto final)

Zdzislaw Beksinski...



Zdzislaw Beksinski, Limited Editions, Belvedere Gallery

28 de dezembro de 2009

"Arbeit macht frei"

Mea culpa, tenho andado a escrever pouco. Deve ser da qualidade da lenha que ando a utilizar, incita-me mais à contemplação que ao trabalho. Mas há acasos na vida. Eis, pois, um desses acasos: a propósito do furto da placa da entrada de Auschwitz (donde o título deste post), há dias, descobri que o compositor francês Olivier Messiaen foi preso pelas tropas alemãs mais ou menos ao tempo do início da invasão polaca. Não esteve inicialmente em Auschwitz, mas numa prisão vizinha, igualmente no Sul da Polónia.

O. Messiaen, Quatuor pour la fin du temps

Nessa condiçã,o compôs Quatuor pour la fin du temps. Entre os seus companheiros de cela figuravan um clarinetista, um violinista e um violoncelista. Messiaen padecia de subnutrição e tinha frequentemente visões acerca do princípio da eternidade. A peça foi pela primeira vez exibida em 1941 perante cinco mil prisioneiros do campo. Acerca do segundo movimento, Messiaen escreveu: "The first and third parts (very short) evoke the power of this mighty angel, a rainbow upon his head and clothed with a cloud, who sets one foot on the sea and one foot on the earth. In the middle section are the impalpable harmonies of heaven. In the piano, sweet cascades of blue-orange chords, enclosing in their distant chimes the almost plainchant song of the violin and violoncello".
É uma peça incontornável na música contemporânea, sobretudo na associação de instrumentos que coloca em cena (o que faz um piano nesta peça? O que fazia um piano em Auschwitz?). Mas é muito mais que isso. Marca o fim da linha para Messiaen, como para tanta gente, entre a qual, o compositor checo Pavel Haas, cuja obra acabo de começar a descobrir.

29 de novembro de 2009

2ª Sinfonia de Mahler, "Ressureição"

Cerca do minuto 22´ da peça acima, que coincide com o final do primeiro andamento, irrompem aplausos do público. É algo comum no decurso de uma peça, mas muito provavelmenteno neste caso, numa campa rasa no cemitério de Grinzig, perto de Viena, Gustav Mahler contorce-se na sua sepultura. Apenas porque quando compôs a peça deixou instruções específicas para que houvesse cinco minutos de silêncio entre o Primeiro e os demais andamentos, os quais deveriam ser utilizados para contemplação (1).

Um acto de fé? Provavelmente não, mas serve pelo menos para a meditação acerca da pergunta "há vida depois da morte?" que cada um de nós se faz em cada funeral, retratado no Primeiro Andamento e a recordação de uma existência feliz do falecido, celebrada no Segundo. A peça prossegue, entre dúvidas e questões que de certa forma permitem a reconciliação entre Deus e o homem, terminando com uma mensagem de esperança segundo a qual ninguém deve temer o Dia do Juízo Final, independentemente da fé que professe.

Voltamos então à pergunta: "um acto de fé?". Seguramente que não, por não haver a referência a um Deus explícito. Tudo se cinge ao simples "eu" humano. E quando dizemos "eu", é mesmo de Mahler que se trata. Donde, a necessidade da pausa entre a primeira parte da peça (o Primeiro Andamento) e a segunda parte (composta pelos quatro andamentos seguintes). De resto, é um tema caro ao compositor, que o repete nas suas sinfonias seguintes. Disto isto, refira-se, a parte musical é sublime (a mais interessante peça de Mahler?), fazendo lembrar a "nona" de Beethoven a espaços, quiça por culpa de um coro que repete vozes de andamentos anteriores? Mas como evitá-lo, se as dúvidas e os pensamentos que reflecte são emuladas dos versos anteriores, enquanto preparam o apoteótico e optimista final?

Apague a luz e deixe-se guiar. No final encontrará, com comoção garantida, outro "eu". Se tiver a sorte de saber onde encontrar a peça conduzida por Leonard Bernstein em DVD, acrescente-a à sua "wish list" deste Natal.

(1) Uma excepção a isto foi feita pelo próprio Mahler, numa carta dirigida a Julius Buths, Maestro, que dirigiu a Orquestra de Dusseldorf em 1903 o qual conseguiu arranjar a peça, dotando-a de uma pausa entre o quarto e quinto andamentos. Apesar disso, Mahler não deixouu de observar que não se devia abdicar da primeira pausa.

4 de novembro de 2009

2666




Os vinte minutos iniciais tiveram um tom trágico onde a palavra destino foi usada dez vezes e a palavra amizade vinte e quatro. O nome de Liz Norton foi pronunciado cinquenta vezes, nove delas em vão. A palavra Paris foi dita em sete ocasiões. Madrid, em oito. A palavra amor foi pronunciada duas vezes, uma por cada um. A palavra horror foi pronunciada em seis ocasiões e a palavra felicidade numa (empregou-a Espinoza). A palavra resolução foi dita em doze ocasiões. A palavra solipsismo, em sete. A palavra categoria, no singular e no plural, em nove. A palavra estruturalismo, numa (Pelletier). O termo literatura norte-americana, em três. As palavras jantar e jantamos, pequeno-almoço e sandes, em dezanove. As palavras olhos, mãos e cabeleira, em catorze. Depois a conversa tornou-se mais fluída.

Roberto Bolano, 2666
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A escrita tem coisas espantosas. Pegue-se no diálogo transcrito acima, por exemplo, da autoria do chileno Roberto Bolaño, onde o próprio autor utiliza um método quantitativo para analisar o excerto do diálogo entre dois amigos filólogos. O número associado à palavra revela um grande domínio desta, de tal forma que a estatística se constitui como um método para acentuar uma ideia, ou apenas para subtilmente a introduzir na narrativa. Por si só, o exercício constitui um recurso literário fabuloso, pela liberdade que proporciona ao autor. Mas há mais. Para melhor o exemplificar refira-se que, há dias, Saramago referia, a propósito do dilúvio de críticas que se abateu sobre Caim, que mais não fez que analisar a bíblia sob um ponto de vista puramente linguístico, olhando apenas para as palavras e para a sua sequência, posição e organização. Não teceu considerações morais, nem nenhumas de outra natureza especial. A análise da palavra no seu estado puro, portanto, numa perspectiva meramente linguística ou literária, se assim preferirmos. Eis então o que há de especial em Bolaño, a perfeita escolha das palavras, não meramente no aspecto qualitativo, mas sobretudo - não vá o leitor estar distraído - no quantitativo. A mesma palavra assume-se como verbo, nome e adjectivo, liberta-se das convenções, torna-se fim e princípio, como o algarismo num número composto.
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Mas há mais: se nos abstrairmos da estatística que a mera contabilidade das palavras constitui e pegarmos numa ferramenta como o Wordle, por exemplo, é possível reutilizar o método estatístico para criar composições literárias a partir de textos nos quais as palavras mais predominantes são visualmente salientadas, permitindo de forma mais ou menos directa fixar as suas principais ideias e matrizes. E então a palavra assume um conteúdo gráfico e visual, sem se esvaziar, porque se mantém intacta, porventura livre de amarras emergentes de leis gramaticais.
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Eis-nos então a olhar para 2666 sob o ponto de vista estético. E quanto ao conteúdo? Proust disse a dada altura que a prova de que estamos perante um grande escritor reside no facto de a sua escrita nos surgir imediatamente como feia. Na verdade, apenas escritores mais medíocres devem escrever maravilhosamente, uma vez que eles simplesmente procuram reflectir a nossa pré-concebida noção do que a que beleza é; não temos qualquer problema de compreender que um escritor medíocre o é, dado que já lemos o que escreve, se não nas suas páginas, pelo menos nas de outro, muitas vezes, anteriormente. Quando um escritor é verdadeiramente original, o fracasso em ser convencionalmente atractivo faz-nos vê-lo, inicialmente, como disforme, desajeitado, ou até perverso. Só depois aprendemos como lê-lo e então percebemos que a fealdade da escrita é realmente um novo tipo, totalmente inesperado, de beleza e que aquilo que parecia errado na sua escrita é exactamente o que o torna grande.
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Isto aplica-se a 2666. E aplica-se à forma, ao posicionamento, mas igualmente ao conteúdo das palavras no texto. Olhe-se por que perspectiva se olhar, à décima página estamos definitivamente agarrados como a uma maldição da qual não queremos libertar-nos. A este propósito, a Slate afirmou que 2666 é a trajectória do universo no limiar do apocalipse. Sem dúvida. Mas acrescentamos que é o apocalipse de Bolaño, mergulhado no mais íntimo do seu incontornável legado: o seu próprio sangue.