7 de março de 2016

Starry night

Silent starry night

endless hour

wordless time

Silent starry night 


No books, no music

reality erased

Only sleep, night 

Oh! and dedicated stars


24 de fevereiro de 2016

12 de fevereiro de 2016

Ao vento [poema de retalhos]

ao vento


um coração ecoa
palavras sussurradas de um poema triste

ao vento

a lua brilha ao recolher de um dia
no silêncio da noite

giram sonhos
sorrisos refletidos nas estrelas

ao vento

embalam-se cumplicidades entre
o luar prateado e os sentidos

baloiçam em surdina
versos por acabar no firmamento

ao vento

mil palavras por dizer
instantes irrepetíveis.

ao vento

os dias sucedem-se
como as estações na cerejeira

ao vento

o silêncio
só um fim e nunca um começo

ao vento

como numa prece,
despertamos com a percepção 

que o sismo que para sempre
nos desmoronaria  o coração

nos enche o peito de vida
em torrente de emoção

11 de fevereiro de 2016

Amo-te!

Ou o princípio metafísico segundo o qual

Uma verdade tantas vezes dita
Se transforma no seu contrário.

2 de fevereiro de 2016

Friedrichstraße

The past is never past. It's not even dead.

William Faulkner




[...] às primeiras horas da madrugada aproximou-se da cancela que delimitava ao acesso à linha do caminho-de-ferro. Ajeitou, como conseguiu, a gola do casaco enquanto aguardava a passagem da composição proveniente de Potsdam. Distinguiu os faróis da locomotiva primeiro varando penosamente a escuridão e a densidade cortante do ar frio que a temperatura de Fevereiro impunha, antes de perceber a silhueta dos vagões que a seguiam. Sentiu no corpo o ronco do motor, que se confundiu com o tremor que o percorreu, fruto do frio e do pânico que se esforçava por a custo domar dentro de si. Aproximou-se à passagem da composição. A linha arcaica e em mau estado obrigava a um vagaroso progresso e por vezes mesmo a uma paragem antes da entrada na gare de Friedrichstraße. Os flocos de neve que caíam, a humidade e o frio tornavam penoso o progresso e o próprio ato de respirar. Ardiam-lhe os pulmões e os olhos. Apertou as mãos dentro dos bolsos, enterrou a testa o mais que lhe foi possível no chapéu de feltro surrado pelo tempo e lançou-se evitando pensar que poderiam ser os últimos passos que dava na vida.

Evitou olhar na direção da gare, mas adivinhava o movimento dos guardas à aproximação da composição. Adivinhou o engatilhar das armas, julgou distinguir o ladrar dos cães, excitados pelo movimento do comboio e o quebrar da rotina da noite. Aspirou levemente uma golfada de ar frio e avançou à passagem da composição, procurando adaptar a vista ao bréu e aos chuviscos de neve. Alcançou instantes depois o último vagão imobilizado e distinguiu os guardas, uns que caminhavam em sentido contrário, outros verificando um a um os vagões agora detidos, mas não olhando na sua direção. O tempo deteve-se. A sua respiração deteve-se. O seu coração parou de bater enquanto julgou ver a eternidade quando o seu olhar inevitavelmente se cruzou com o de um dos guardas. O cão que o guarda trazia pela trela ladrou. Furiosamente. Por sorte, na direção da composição. Vários guardas acorreram ao local. As lanternas apontaram para a parte inferior de um dos vagões e ouviu-se o ruído de armas a serem aprontadas. Ainda sem respirar, Eric Sevlak continuou no seu passo, esperando pela ordem que impediria o seu progresso. Ouviu-a, mas sem se deter encolheu os ombros aguardando pelo momento em que sentiria os seus ossos a serem despedaçados por balas antes de cair à vista da fronteira para berlim Ocidental.

Nada. O tempo arrastou-se. E nada.

O guarda esqueceu-se por instante do rosto do homem que cruzara olhar consigo, antes de a sua atenção ser atraída pelo cão para debaixo de um dos vagões provenientes de Potsdam. Estava enregelado e com saudades de rever os seus familiares, que deixara numa aldeia nos arredores de Dresden havia mais de três anos de serviço ininterrupto. E agora desejava que de debaixo do vagão não saísse uma pobre alma a tentar passar para o ocidente a coberto da noite. Eram aos milhares os clandestinos e não raras os seus superiores vezes ordenavam que os fuzilassem sumariamente para poupar o incómodo de um interrogatório longo e moroso, alegando que haviam tentado fugir.

Um disparo. Outro. O ruído das vozes humanas, do latir dos cães e do disparo das armas fundiu-se com a escuridão da noite e um após outro os passos de Sevlak aproximaram-no da fronteira que aos poucos se tornou visível. O guarda federal pareceu surpreendido quando viu a sua silhueta e não teve de lhe pedir que se detivesse antes de atravessar a linha branca. Sevlak desfaleceu quando o seu pé direito transpôs pela primeira vez a fronteira ocidental, ou seja, no preciso instante em que, muito embora disso não se tenha apercebido, se tornou um homem sem passado e sem futuro.

29 de janeiro de 2016

Mundo de pernas para o ar

Um exercício aparentemente simples:
Uma folha em branco
Tão imensamente
vazia
Tão assustadoramente
vazia
Tão repentinamente 
vazia

Diante da qual hesito
Mas não resisto
a ocupar
assim 
com esboços
palavras 
compassos
versos sem fim

Todo
o infinitamente branco
Onde não cabe
Nenhum vácuo
Nenhum silêncio 
Nenhum vazio

Enfim

Todo
o mundo de pernas para o ar

10 de janeiro de 2016

Otherwordly Blue



Look up here, I’m in Heaven,
Oh, I’ll be free just like that bluebird
Oh, I’ll be free
Ain’t that just like me
(Bowie, Lazarus)

2 de janeiro de 2016

Terra





às vezes recordo-me
do teu corpo ser um aquário
e os teus olhos safiras
através dos quais via a verdade do mundo

às vezes ocorre-me
todavia, que a verdade do mundo
é um par de calças
de algibeiras vazias

ou simplesmente um jardim, o sol,
a areia, uma mão cheia de sonhos
o firmamento de onde se sopra
o pó das estrelas



Água




Oh! Dream of joy! Is this indeed
The light-house top I see?
Is this the hill? Is this the kirk?
Is this mine own countree?

We drifted o'er the harbour-bar,
And I with sobs did pray—
O let me be awake, my God!
Or let me sleep alway.
.
(the rime of the ancient mariner)


1 de janeiro de 2016

28 de dezembro de 2015

Horizonte



Aujour'hui 
un peu comme dans d'autres jours
j'ai pensé à toi
Et d'ailleurs
j'ai pensé que peut-être
tu as appris à voir l'infini
L'infini des si petites choses
comblant au bonheur de la vie
qui se cache
à chaque instant
derrière chaque porte.

22 de dezembro de 2015

Un pilier


L'intensité d'un amour se mesurerait à l'impatience ou l'extrême patience d'attendre. Dans ce qui arrive ou n'arrive pas, je sais que le plus beau c'est le temps de l'attente, un espace tendu comme un linge entre un arbre et un pilier chancelant et lointain qu'on aperçoit sans vraiment le cerner.
.
[Tahar Ben Jelloun]

21 de dezembro de 2015

18 de dezembro de 2015

The teapot

The teapot is now full.
How long the time has been.
The aroma is so fragrant.
Thoughts and laughs are blending in.
.
Through the flavor of the leaves,
Hidden contents are revealed.
Though inside the painted glass,
Taste betrays against its will.
.
Potful after potful,
While the hours sneak away.
Struggles and life’s many woes,
With each sip no longer stay.
.
Though at first the tea is tasty.
Though it’s easily refilled.
It just can’t last forever.
The pouring soon is stilled.
.
The last cup is too bitter!
The last word is the same!
The teapot is now empty,
Till teatime comes again.


(Elise Reid)



9 de janeiro de 2015

Pourquoi je ne suis pas Charlie