9 de abril de 2018

A colloquial reluctance to assimilate a soliloquy

Jacqueline du Pré, 
Edward Elgar, mov. 1 concerto para violoncelo en Mi menor op. 85
(maestro: Daniel Barenboim, Londres, 1967)

Did I dream? was I ever you
Or was it my inefficient imagination
my cynical optimism
my baroque contradiction
my own contingency
[whatever]
imagining that you once were me?

Why bother to know
such obnoxious eloquence
and fluent speech
crambled with cherries
and strawberries
when all such imperfect
gentrified formulation
and verbal masturbation
can merely achieve
an ambiguous festival of silence?

I see white words
floating on dark screens
poetry drown in modernity
and sarcasm
words full of hormones
men and women
all alone
with a single purpose
to marry
Tom or Jerry

Where is veracity?
or the capacity
to explain reality
Is it methodology?
or mythology?
a simple theory
perhaps a cursed soliloquy
to describe this pile of debris
with no cerimony
or drudgery

Love will always be a mistery




22 de março de 2018

Sincere pollution

Diffuse matter
a circumstance
a surprise
I close my eyes
before intubation
stabilization
circulation
ressurrection

silence
a gentle whisper
extinguished warmth
forgotten lips

Fixation

I'm dancing
and loving
to melt a storm
but now
I've found
it is too late
so late

this afternoon
the thrill has gone
love is old
nights are cold
the moon is gone
so soon
gone

In vain
I pretend
this is the end
no seaside
no shore
no poems
an empty space
between the stars
crack
the thrill is gone

(revisiting Patricia Barber) 

5 de março de 2018

instante na cidade

havia um ruído
de nada na terra
interrompido por
um tremor de passos
irrompendo 
na paisagem verdejante 
como nas páginas de um romance
Crianças 
surpreendidas pela chuva
respirando alegria 
Gotas de riso espalhadas num instante
fugaz 
calando o Silêncio da cidade
onde sonhos semeiam
semanas povoadas de torpor humano
soberano 

sopra humildemente 
o Vento do momento




21 de fevereiro de 2018

rain

Love in a raindrop
After the storm
a heart
Sadly echoing
on a guitar

I see your eyes
I see emptiness

3 de fevereiro de 2018

Espuma do tempo

Que espinhos semeia o amor
no caminho sobressaltado da vida
vergado pelo uivo do vento
e o rasgar das ondas no mar

O espírito sopra o vento
do destino, livre,
puro, como a espuma
branca na areia

O amor, a virtude sem pecado
sem crime ou castigo
vive ao lado
em silêncio.

Procuramos em olhos alheios
os beijos calados por que anseiam os lábios
as mãos invísiveis à procura de um corpo
inflamado pelo alento do amor

são assim as Almas gémeas
perdidas
no silêncio
distantes no tempo




29 de janeiro de 2018

O cavalo de Heitor (ou a arte de amar segundo Ovídio e Apuleio)

Étienne-Maurice Falconet (1716-91), Cupido


"não deixes para trás a tua parceira, desfraldando mais largas velas,
nem seja mais rápido o ritmo dela que o teu;
avançai para a meta ao mesmo tempo; então, será pleno o prazer,
quando, par a par, jazerem, vencidos, a mulher e o homem.
Esta é a prática que deves cultivar, sempre que te seja dado desfrutar livremente
do ócio, e o medo te não forçar a aventuras furtivas."



Ovídio, Arte de Amar, versos 703 e seguintes do Livro II

24 de janeiro de 2018

About stars and colours...


Ocasos da memória

Queimo o figado
Na escuridão
Poemas sem fim
Desfiados na solidão
Aberta na fresta
Da alma pela
Memória da caneta

Divido o destino
Entre a sorte
E o acaso da arte
Vazia
do espírito
Sendo fracos
Que nos sirva
A vida

De lição.


                                                                        [mas somente depois do tempo das amendoeiras em flor]

11 de janeiro de 2018

Balada para M

Nasce o dia
brota um sorriso
escarlate
acariciado pela luz matinal
dançam perfumes e estrelas

Desfilam despojos de candura
tremores num corpo breve
nada é dissabor nú
mundo aromatizado
por perfume da cerejeira

9 de janeiro de 2018

Waters

Testing waters
Is it too late?
And what thoughts lie ahead?
My head is spinning 
Around
a new beginning 
Is this the way
Or is it not real

The sky is twisted
My head is spinning
around
a new beginning
a
new
beginning

8 de janeiro de 2018

Claire's dilemma

As a writer, Claire was a rare talented woman. But one day she had to choose between words and reality.

Her mistake was to love a man and love more the words than the man that inspired her to write them.

Marc Chagal

Time flies

O tempo é indiferente
é assim
não espera
mesmo que o queiramos diferente
É um imenso Mar
salgado
que cura as feridas
tempera a pele
e destempera o ferro

O tempo é uma encruzilhada
de encontros
e desencontros
dos quais se fogem
chorando
É indiferente
imenso
não espera
mesmo que o queiramos diferente


26 de dezembro de 2017

14 de dezembro de 2017

... and love

no tempo dos poemas
no verdeiro tempo dos poemas
tudo era um poema:
os escritos na areia 
uma concha rolada pela maré
o cheiro da urze
o ranger da areia na maré vaza
a volatilidade dos sentidos

no tempo dos poemas
o sobressalto do amor
confundia-se:
com a irrealidade do horizonte
a morte era uma insignificância
a vida um lugar imenso
as palavras não eram ainda
uma natureza-morta

no tempo dos poemas
a poesia era perigosa
e afetava a latitude das estrelas
as correntes dos mares
o tumulto do universo
Deus não existia
somente a dissipação
da vida




12 de dezembro de 2017

Silêncios




A verdade existe onde não estou
O silêncio não existe 

nem onde o penso
embora às vezes
                          pense o silêncio
oiço-o

imagino-o
               como notas musicais
apagadas


como palavras que se animaram no meu interior

                                                                     e se rasgaram

nesses momentos             raros
o silêncio é uma casa vazia
o silêncio sou eu


Seville revisited 10.000 miles after a solstice

7 de dezembro de 2017

Ondas

Delicioso o ardor desamparado
o baloiço esquecido do tempo
que sopra a vida
onde permanecemos como um navio
a flutuar
sobre o mar

devagar
devagar
devagar

6 de novembro de 2017

uma pequena comoção

sonhei: de novo
soprava o vento
ondulavam as campânulas
sob uma cúpula azul
de onde me chegava
o eco galhofante
das juras do amor
eterno

não oiço: sequer
a tua fina voz
translúcida 
um espectro
varando a luz sólida 
do fim de tarde
o grito das gaivotas
clamando o teu nome

levanto-me: hoje 
velho
sonhando com a poesia
dos versos simples 
onde já não cabe 
a alma inquieta
por tudo o que ruía
em meu redor

hoje: comove-me
o futuro
a frescura da água
um verso de Rilke
a memória
de um mamilo teu
adormecido
entre os meus dedos

Onde estou?
Onde estava?
não desperto de nenhum sonho
somente acordo
cicatrizo: a luz
o amor acaba
às colheradas
como um frasco de mokambo.

19 de outubro de 2017

10 de outubro de 2017

Dia 1+9/10 ou o dia "0" para a Catalunha



Hoje Puidgemont pode declarar a independência unilateral da Catalunha. Hoje, isso pode não significar nada ou pode significar tudo. A ideia é perigosa e contundente pois, isolada e de costas voltadas para a Europa, a aventura tem tudo para falhar (a França e a Espanha não reconhecerão a Catalunha como estado independente e outros se lhe seguirão). Economicamente, pode ser um desastre, como atestam as recentes decisões de alteração de sede de grandes empresas com sede na província. E no entanto, não deixamos de dever à Catalunha alguma da nossa soberania conquistada em 1640, quanto mais não seja porque nos divide uma histórica questão fronteiriça com Espanha.

Na Europa do Séc. XXI os separatismos são vistos de soslaio porque colocam em causa a ideia da construção e da unificação europeia e nessa medida a separação de um estado-membro é uma rotura com a própria UE. Vão longe os tempos em que as aventuras independentistas e a redefinição das fronteiras europeias era uma aventura aceitável. Hoje, a união parece um valor intangível e portanto o romantismo da ideia separatista da Catalunha estará condenada ao fracasso, ainda que com um custo que pode ser elevado para as partes.

Ecoam longínquas as palavras de Oscar Wilde: "an idea that is not dangerous is unworthy of being called an idea at all". Parece um contrasenso pensar que a ideia de Europa está em risco hoje, independentemente do que suceder na Catalunha, mas não deixa de ser significativo pensarmos que o critério europeu tem variado ao longo dos tempos, como atesta a distância de posições entre o tempo em que se discutiam os separatismos nos balcãs e a forma como estes são entendidos hoje. 

A história ensina-nos que os movimentos independentistas acabam por triunfar. Por mais argumentos legalistas que se esgrimam, não raras vezes as independências impõem-se com violação de leis e normalmente da lei suprema, ou seja a lei constitucional. Dessa forma, valem mais os argumentos substantivos que os formais e legalistas, porque é infinitamente mais facil escrever uma nova constituição que estar a discutir alterações à do Estado que preexistente. 

E a UE? Tendo passado por quatro testes de fogo ao longo deste ano, com as eleições holandesas, francesas, alemãs e britânicas (com as italianas no ano que vem), a reinvenção europeia assume prioridade. O discurso otimista de Juncker há dias não disfarçou essa necessidade, quando traçou o caminho dos próximos tempos, até porque o caminho parece-se cada vez mais com uma encruzilhada onde temos de optar e cada opção nos fará perder sempre qualquer fragmento identitário, maxime a própria identidade. Noutro contexto, há tempos escrevia Eric Hanson, ilustrador da New Yorker 

Every time I go somewhere
I leave part of me behind

Mais do que a Catalunha e Espanha, vale mais perguntar Quo Vadis Europa?