2 de janeiro de 2016

Terra





às vezes recordo-me
do teu corpo ser um aquário
e os teus olhos safiras
através dos quais via a verdade do mundo

às vezes ocorre-me
todavia, que a verdade do mundo
é um par de calças
de algibeiras vazias

ou simplesmente um jardim, o sol,
a areia, uma mão cheia de sonhos
o firmamento de onde se sopra
o pó das estrelas



Água




Oh! Dream of joy! Is this indeed
The light-house top I see?
Is this the hill? Is this the kirk?
Is this mine own countree?

We drifted o'er the harbour-bar,
And I with sobs did pray—
O let me be awake, my God!
Or let me sleep alway.
.
(the rime of the ancient mariner)


1 de janeiro de 2016

28 de dezembro de 2015

Horizonte



Aujour'hui 
un peu comme dans d'autres jours
j'ai pensé à toi
Et d'ailleurs
j'ai pensé que peut-être
tu as appris à voir l'infini
L'infini des si petites choses
comblant au bonheur de la vie
qui se cache
à chaque instant
derrière chaque porte.

22 de dezembro de 2015

Un pilier


L'intensité d'un amour se mesurerait à l'impatience ou l'extrême patience d'attendre. Dans ce qui arrive ou n'arrive pas, je sais que le plus beau c'est le temps de l'attente, un espace tendu comme un linge entre un arbre et un pilier chancelant et lointain qu'on aperçoit sans vraiment le cerner.
.
[Tahar Ben Jelloun]

21 de dezembro de 2015

18 de dezembro de 2015

The teapot

The teapot is now full.
How long the time has been.
The aroma is so fragrant.
Thoughts and laughs are blending in.
.
Through the flavor of the leaves,
Hidden contents are revealed.
Though inside the painted glass,
Taste betrays against its will.
.
Potful after potful,
While the hours sneak away.
Struggles and life’s many woes,
With each sip no longer stay.
.
Though at first the tea is tasty.
Though it’s easily refilled.
It just can’t last forever.
The pouring soon is stilled.
.
The last cup is too bitter!
The last word is the same!
The teapot is now empty,
Till teatime comes again.


(Elise Reid)



9 de janeiro de 2015

Pourquoi je ne suis pas Charlie




1 de setembro de 2014

Quando partiste despejei o cinzeiro. Não me interpretes mal, despejei mesmo o cinzeiro. Foram-se as beatas, a cinza, os fósforos queimados, os bocadinhos de papel de prata e a fita de celofane, mas também o próprio cinzeiro. Devo-te dizer que me sinto melhor agora, sobretudo porque ando a tentar deixar de fumar.

5 de junho de 2014

What happened to the world?

Em 1926, a irmã de Harry Leslie Smith morreu de tuberculose num asilo, a família era demasiado pobre para poder custear as despesas médicas. Em 1948, a criação do National Health Service (NHS) ou Serviço Nacional de Saúde ("público") colmatou a lacuna e deu esperança aos mais desfavorecidos num Reino Unido acabado de sair da Revolução Industrial, da Primeira Guerra Mundial e da epidemia da Gripe Espanhola. Harry acaba de publicar um livro, que é simultaneamente um grito de desespero face à legislação que a coligação no governo do Reino Unido acaba aprovar e que na prática representa um ataque ao sistema público de saúde.

A crise recente tem levantado o debate e o resultado tem sido quase sempre a redução do serviço público com a desculpa da falta de dinheiro. Não obstante essa ser uma realidade, o facto é que a criação do SNS é algo que nos últimos cem anos alterou o espetro da mortandade e da saúde dos europeus. Esta crise não deveria ser um pretexto para acabar com ele, mas antes para o aperfeiçoar e corrigir nas suas inúmeras falhas, a começar pelos que nele trabalham, a própria gestão e a educação dos utentes, de forma a consciencializá-los do bem escasso que a saúde e os tratamentos constituem. 

Vale, pois, a pena dar o salto para a realidade portuguesa e determo-nos no que foi criado desde o início do Serviço Nacional de Saúde português (SNS) - que esta semana perdeu João Lobo Antunes - desde 1977. É dos melhores da Europa, para não dizer do mundo, e urge por isso defendê-lo. Foi isso que o jovem médico Francisco Goiana da Silva, de 24 anos, fez em Davos, no final de 2013, defendendo um SNS de qualidade para todos. Talvez por isso, ou não apenas por isso, optou por seguir carreira no Imperial College de Londres, a estudar gestão hospitalar e a tentar exportar o modelo do SNS para o mundo.



Nesta altura, importa fazer uma declaração de intenções: nada temos contra os esquemas ou sistemas alternativos de assistência à saúde (talvez exceção feita à ADSE, cuja utilidade e razoabilidade tenho dificuldade em compreender), mas estes não podem beliscar o SNS, nem atentar contra os cuidados universais e de qualidade a prestar a todos. Atacar isto representa conspirar a favor da alteração da estrutura e conceção do Estado Social criado no pós Segunda Guerra na Europa e, desde 1975, em Portugal e, naturalmente, requer ponderação. Mais ainda, requer aprovação da sociedade civil, por representar uma alteração do pacto social e dos princípios basilares da sociedade vigente. 

Aos costumes, importa, antes de mais, pois, desfazer equívocos: estes valores, pelo facto de serem basilares, não estão ao dispor dos deputados nem dos governantes; pela essencialidade, pelo facto de serem o núcleo do Estado, qualquer alteração que se pretenda neles introduzir carece de ser referendada antes de poder haver sequer uma revisão constitucional, se é para aí que a intenção da maioria se dirige, por não serem valores livremente disponíveis. Sejamos, pois ainda mais claros: avançar um milímetro que seja em direção ao desmantelamento do SNS, constitui um atentado ao Estado Social e ao próprio Estado de Direito. Donde, é imperativo rever urgentemente a questão dos custos e da sustentabilidade, o que, concedemos, não é tarefa fácil. Nem coisa diferente seria de esperar. Mas é essa precisamente a tarefa e a extensão do mandato do Governo e não desmantelar ou cortar a eito no SNS.

Desfaça-se portanto o equívoco: o mandato concedido pelos portugueses é o de bem gerir a res publica, sem alterar a sua natureza. Melhorar não pode querer dizer alterar sem mandato e isso tem de ser bem claro, uma vez que o Pacto Social celebrado entre o Estado e os indivíduos para cuidar destes valores não tem prazo de caducidade.

Afastem-se desta forma quaisquer equívocos em relação ao papel e à extensão do mandato de um político em democracia, para não chegarmos ao ponto de termos de fazer a pergunta que é ao mesmo tempo o título do livro de Harry Leslie Smith.

20 de maio de 2014

Revisitando RM Rilke

Outra vez o bosque
A chuva 
Precipitando-se nos nosso ombros
Por entre os rasgos de dia
os ramos vergados das árvores
as nuvens fendidas
Pedaços de luz entornados
do rosto do Sol
Reflexos dourados antes da calma
Outra vez a chuva
A bater nas janelas
 antes de se retirar 
À chegada do estio
Ate ao amarelecer das folhas
do bosque e o alongar das sombras
Outra vez
ainda
o ruído do resfolegar das folhas agitadas pelo vento
a abafar
o murmurio do coração.

5 de maio de 2014

Um adeus insincero segundo VGM

por isso afinal não quero 
ir contigo ao lusco-fusco, 
meu amor, nem é sincero 
fingir eu que assim te espero, 
sem saber bem o que busco

17 de abril de 2014

Gabo

- ¿Y hasta cuándo cree usted que podemos seguir en este ir y venir del carajo? – le preguntó.

Florentino Ariza tenía la respuesta preparada desde hacía cincuenta y tres años, siete meses y once días con sus noches.

- Toda la vida – dijo.


Gabriel García Márquez. El amor en los tiempos del colera.

6 de dezembro de 2013

Morreu o sócio número 31118




O jornal Público de hoje referia que a obra de Mandela foi a liberdade. Nem mais, nem menos e com toda a propriedade. Da luta, das palavras, dos sacrifícios, dos acertos e dos desacertos, das palavras, a liberdade é o grande legado de Mandela para as gerações presentes e futuras. A liberdade no mais lato sentido que se lhe possa atribuir, onde cada homem tem o mesmo valor do seu igual, sem qualquer condicionante ou limitação. A liberdade de conviver com o outro sem ira, sem procurar acertos de contas com o passado, sem outro compromisso que não deixar um mundo melhor que aquele que encontrou.

Para além do Homem, morreu ainda o advogado, o homem que no desempenho da sua profissão tem como única obrigação ser livre e independente na defesa das suas causas. E Nelson Mandela foi livre como poucos no exercício da sua profissão, afirmando-se como o exemplo do que pode e deve ser o exercício da advocacia para defesa da Justiça, da Igualdade dos Direitos, Liberdades e Garantias.

Last but not the least, morreu ainda o sócio número 31118 do Sporting Clube de Portugal.







19 de novembro de 2013

Manhã outonal

Bosque de bétulas, G. Klimt, Viena, 1902


Não é ainda o Outono. É um céu azul que pressentimos efémero, uma leve cinza a elevar-se ao longe, diluindo o horizonte, o verde das folhas das bétulas e o das das árvores vizinhas, a seiva a abrandar dentro dos troncos. A promessa da água que há-de vir antes de, de novo, a luz raiar, ainda uma luz de Verão, mas agora filtrada e sem pressas, o calor apaziguado. Por instantes pensamos que ao mundo é possível devolver uma ordem, um equilíbrio, enfim, dar-lhe um nome que não tropece nas suas próprias sílabas. 

7 de julho de 2013

Road to 40

No planeamento da viagem a Tombouktou vem pesando bastante o aspecto cultural. Neste campo,  a construção e as técnicas empregues no "país Dogon", a escolha dos materiais, mormente a argila, e a combinação de materiais primários na construção dos edifícios principais.

Hoje, este inseto mostrou-me que a universalidade da edificação de estruturas é transversal às espécies no planeta. Após várias dezenas de viagens, a sua habitação vai tomando forma. O país Dogon, progressivamente reproduzido de forma liliputiana neste alpendre, preenche-nos.



30 de maio de 2013

O palhaço

Miguel Sousa Tavares corre o risco de ser condenado por difamar o presidente da república. Ter-lhe-á atribuído o epíteto de palhaço. A wikipedia define  a figura do palhaço de forma assaz simplista e a Priberam encontra  várias definições para a profissão. O problema é que Cavaco vem-se colocando a jeito desde que foi fazer a célebre rodagem do Citroen à Figueira da Foz, em 1995, formou governo e se rodeou da maior seita de malfeitores de que há memória no país. Não vale, obviamente, a pena recordar os episódios dos seguranças, da crise da ponte, dos seus tristes tabus, do BPN, das ações vendidas com mais-valias, do episódio da moradia na Praia da Coelha, da vivenda Mariani, da forma como foi pedida a fiscalização da constitucionalidade do último orçamento, da trapalhada que isso representou, ou o bolo-rei atravessado nas maxilas do presidente. Nada disso foi, na opinião de Cavaco, suficientemente burlesco e só por si não justificava o epíteto, pelo que  MST deve, obviamente, ser condenado por desrespeito da figura presidencial. 

Evidentemente, devem tambem ser doravante ser condenados todos aqueles que de ora em diante se referirem a Dom Sebastião como um efeminado, a Dom João VI como um desertor ou a António de Oliveira Salazar como um ditador sanguinário. O próprio Marquês não escaparia a um título menos edifcante depois da responsabilidade que lhe é hisotoricamente atribuída na tragédia dos Távoras.Todos eles foram figuras de proa da nação e portanto qualquer ofensa ou comentário negativo no tom referido pode ser interpretado como uma ofensa a uma insígnia nacional e portanto suscetível de determinar a punição do autor de qualquer comentário menos digno para a figura em causa. Está assim salvaguardada - com as devidas diferenças - a honra de figuras como Adolfo Hitler, Estaline ou Hugo Chavez, todos eles democraticamente eleitos.

Obviamente, a questão vai muito para além disso e vai ao ponto de ser necessário separar a figura do PR da figura do cidadão Cavaco Silva. E este não se pode simultaneamente travestir de uma pele e de outra, consoante  as suas conveniências. Dito de outra forma, a Cavaco e aos demais políticos dee ser vedado mimetizarem-se como lhes convem, sob pena de estar em causa a transparência do exercício das suas profissões e de uso inadmissível das imunidades conferidas pelos seu mandatos. Assim, uma vez na arena politica (para que não restem dúvidas, não estou a chamar os bois pelos nomes), aos políticos exige-se que se comportem como tal e não como artistas de um circo que a política, claramente, não pode ser - com todo o respeito pelos artistas de circo e sem querer com isto limitar a escolha da profissão que cada homem pode livremente eleger, dado que um politico pode ter preferência por malabaristas, equilibristas, trapezistas, mestres de cerimónias ou as duas vertentes da carreira de palhaço, o pobre e o rico.

Cavaco podia ter dito que não era um palhaço e justificava, se entendesse necessário, que a expressão não se lhe cola, escolhendo outra profissão, que não a da PR obviamente, cujos desígnios, lhe escapam por completo. E com isso o assunto se encerraria. Com a sua atitude, conseguiu colocar o país a discutir se é um palhaço ou não e, na melhor das hipóteses, será um magistrado a decidir se Miguel Sousa Tavares tem razão. Não sei porquê, talvez, como diz o povo português, Cavaco se tenha colocado nos cornos do boi (e não lhe estou a chamar toureiro) e o episódio seja um espinho cravado na sua desejada reforma dourada.

18 de abril de 2013